sábado, 8 de maio de 2010

Conto de dia das mães

Quando minha mãe morreu eu tinha 16 anos e muitas mulheres maravilhosas da família continuaram a me ensinar o que minha mãe iniciou: o amor e a satisfação perante a vida. A elas (e a todas as mulheres, inclusive as mães biológicas) eu dedico este conto de dia das mães. Em especial à tia Lourdes - in memorian, que me aturou no auge da adolescência, a minha prima Vanira (abaixo), que até hoje é minha mother cover, e as outras primas, que são muitas para serem nomeadas mas igualmente queridas e admiradas.


A maturidade foi-lhe severa e ao mesmo tempo generosa. Vivia com as marcas de seu sucesso como mulher e mãe, agora avó, sabendo que não adiantava querer entender o que a vida nos reserva, de bom ou ruim. Ela sabia que os resultados finais seriam bons, não importa o que ainda acontecesse para si e sua grande família.

Quando olhava os netos, ainda muito jovens, quase bebês, percebia que a vida era um contínuo presente e uma contínua esperança, representada pelo futuro. Ou um futuro representado pela esperança? Que seja. O passado era a sua identidade, a sua memória, as contabilidade das esperanças que se concretizaram. Ou não. Mas essas esperanças não realizadas tampouco se transformaram em ressentimentos ou culpa, isso não. Havia também a saudade, das coisas que aconteceram e das coisas que deveriam acontecer. Estava no auge de sua vida. Conhecia como seus familiares e amigos viviam e administravam suas existências igualmente belas e ricas, apesar dos problemas.

As perdas viravam faltas, mas tudo era redimido pelas novas vidas, dos velhos e dos jovens, que floresciam a cada dia com seus anseios, desejos e vontades. Olhava para sua mãe, já idosa, porém tranqüila e serena, assim como via suas jovens filhas e sentia a vertente forte e magnífica da vida perpassar sua história. Era uma grande história. O que marcava o domingo era a presença daqueles que foram ao almoço e dos que não puderam ir, mas gostariam de lá estar. Eles conviviam com a memória dos que se foram para sempre e, portanto, para sempre com eles estariam.

As mães eram as estrelas, as árvores, a Terra, ou Gaia para os antigos gregos, todos berços de vida. Não apenas berços biológicos, mas emocionais, sentimentais, afetivos, berços protetores do que a humanidade desenvolvera ao longo de milhares de anos, a capacidade de defender suas novas gerações, não importa a idade que tenham.

Olhou-se no espelho. A beleza da juventude permanecera e as marcas da maturidade retocavam o quadro com ares de dignidade e sabedoria. Conhecia a vida e os seres humanos. Seu marido estava ali, ao seu lado. Eles eram parte de um projeto, de um sonho que lançava ramos, frutos e sementes pelos vastos campos da existência. Sentia-se poderosa e realizada, mesmo com eventuais cansaços e tristezas. No fundo ficava a satisfação e a beleza das mulheres que, tendo ou não procriado biologicamente, sabiam que a vida fala mais alto que a morte e a alegria supera as dificuldades, porque é assim que a vida quer que vivamos. É Eros, o deus do amor, que marca a vida das mulheres saudáveis e de bem consigo e com os outros.

O espelho devolveu-lhe o olhar. Sabia que outras pessoas da família tinham essa dúbia relação com os olhares do outro lado do espelho. Estava familiarizada com a estranheza, pois o amor assim se comportava em sua magnitude. Borrifou o perfume, arrumou o cabelo, ajeitou a blusa colorida e saiu para encontrar, no almoço de dia das mães, a totalidade de sua vida e continuar a construção do futuro.

Texto: Luiz Gonzaga Godoi Trigo




Um comentário:

Ana disse...

Saiba que você tem uma fã turismóloga aqui em Cabo Frio; que agora acabou de descobrir esta pérola escrita por você!

Mais sucesso sempre!