sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo - Humor vital, humor mortal



 

No dia 7 de janeiro de 2015, houve mais um massacre, mais uma vez anunciado, contra seres humanos desarmados, porém muito perigosos por serem humoristas. Máfias, milícias, polícias, exércitos, guerrilheiros, bandidos, psicopatas, religiosos, profissionais da saúde, políticos e todo tipo de gente promovem matanças, individuais ou em grupo, todos os dias. Muitos holocaustos chegam aos meios de comunicação de massa e nas redes sociais, entram para a história ou são romanceados pela literatura, pelas histórias em quadrinhos ou pelo cinema. Outras chacinas ficam incógnitas, perdidas em recantos geográficos insignificantes ou inacessíveis,  esquecidas nos desvãos das notícias e dos relatos, mas nem por isso os que sofreram a violência sentiram menos a humilhação, as dores e a perda de tudo o que possuíam em suas vidas, inclusive a própria. 

Todas essas perdas são sofríveis. A violência é estúpida, brutal, geralmente irracional, mesmo quando planejada por engenheiros e técnicos em destruição em massa e preconizadas por dirigentes altamente intelectualizados, sejam os políticos, militares, acadêmicos, religiosos ou simplesmente marginais em busca de algo que – imaginam - dará sentido às suas miseráveis existências. Toda violência é também absurda, portanto risível. 

Por isso os seres humanos na redação da Charlie Hebdo, em Paris, no dia 7 de janeiro eram desarmados e perigosos. Usavam o riso, o humor para atacar as bases dos fundamentalismos e certezas que alicerçam os muros da repressão, do poder, ou seja, da violência. Eu posso matar, torturar, condenar, reprimir, mas você não pode rir de mim. Seu riso é uma arma tão ou mais mortal que minha espada, meu fuzil, minha granada, meus instrumentos precisos e engendrados para produzir submissão e dor. Por isso, se você rir ou, pior, provocar o riso, você merece morrer. 



A questão subjacente ao massacre do periódico Charlie é o humor. Os totalitários, os boçais, os fundamentalistas, os que possuem certezas pétreas não riem. Não admitem o riso. Não suportam o sorriso, a ironia, a gargalhada, a derrisão. Por que?

Há uma vasta bibliografia sobre o riso, o humor, o cômico. Usarei principalmente a História do riso e do escárnio, de George Minois (São Paulo: UNESP, 2003) para embasar minhas risíveis ideias sobre a ferocidade humana contra seu próprio senso de humor. 

No ocidente o riso é dionisíaco, vem das sombras dos tempos mitológicos gregos, das festas rurais de dezembro promovidas pelos camponeses da Ática. Eles saiam em procissões cantando refrões obscenos, plenos de zombaria, carregando enormes phallos (pênis) que são os símbolos da fecundidade da Mãe Terra (Gaia ou Gea). A festa terminava com um kômos, uma correria de bandos embriagados que cantam, riem e interpelam as outras pessoas. É dessa komôdia que surge a comédia. O riso, nas brumas do tempo, é associado à agressão verbal, com as forças obscuras da vida, do caos, da subversão. É o carnaval, a ruptura cerimonial e ao mesmo tempo caótica com o tempo comum. Mircea Eliade, Jean-Pierre Vernant, James G. Frazer, Pierre Dumézil e outros estudiosos da mitologia pesquisaram esses tempos primordiais. Aristóteles entendia que a comédia se originou nos cantos fálicos dessas farras campestres dionisíacas. Umberto Eco, em O nome da Rosa, mostra de modo romanceado como teria desaparecido a Comédia de Aristóteles, que seria a segunda parte da Poética, que trata tragédia. A comédia já era ferozmente condenada nos tempos do cristianismo medieval. Porém, o mundo clássico expressa que “o riso, como irrupção de forças vitais irracionais, está no centro da tragédia humana. Essa ideia seduziu a época contemporânea, tão marcada pelo ambíguo.” (Minois, 2003, p. 37). 

Minois divide a sua história do riso em três períodos: 1) o riso divino dos antigos gregos; 2) o riso diabólico, satanizado pelo cristianismo medieval movido pela afirmação dúbia e não fundamentada de que “Cristo nunca riu”. Enquanto o riso grego sacralizava o mundo, o riso diabólico o dessacralizava, sendo portanto condenado pelas igrejas cristãs; e 3) o riso humano, oriundo das crises de consciência da mentalidade europeia, origem do pensamento moderno. 

Na antiguidade (século IV a.C.), é Demócrito quem radicaliza o riso, fazendo dele uma crítica do conhecimento  e a expressão de um ceticismo absoluto. Para ele “a derrisão é a constatação da incapacidade radical do homem de se conhecer e conhecer o mundo. Nada merece ser levado a sério, já que tudo é ilusão, aparência, vaidade – tanto os deuses como os homens.” (Minois, 2003, p. 62). Há ainda o riso da critica social que os cínicos, como Diógenes, expressam para abalar as hipocrisias e certezas de suas sociedades. 



Se quisermos uma definição de humor, a de Pìerre Daninos é eloquente e ampla: “É antes de tudo, na minha opinião, uma disposição de espírito que nos permite rir de tudo sob a máscara do sério. Tratar jocosamente coisas graves e gravemente coisas engraçadas, sem jamais s elevar a sério, sempre foi próprio do humorista. Graças a isso, ele pode, com frequência, dizer tudo, sem parecer tocá-lo.” (Minois, 2003, p. 78, 79).  Para Minois, “o humor surge quando o ser humano se dá conta de que é estranho perante si mesmo. O humor nasceu com o primeiro ser humano, o primeiro animal que se destacou da animalidade, que tomou distância em relação à si próprio e achou quer era derrisório e incompreensível.” E isso é intolerável para os fundamentalismos. 

O cristianismo, no período medieval, era a religião dominante que prevaleceu sobre o judaísmo, apossou-se do pensamento grego e dominou as estruturas administrativas e jurídicas do decadente império Romano. Como religião homogênea de um período marcado pela fragmentação geopolítica e pelos perigos de uma longa decadência imperial, tornou-se apologético, dominador e cioso de seus direitos conquistados. Não admitia gracejos, dúvidas ou liberdades individuais. Um dos mais severos adversários do riso na cristandade nascente foi São João Crisóstomo (334-407). Para ele o riso era satânico, infernal e pecaminoso. Apesar do cômico e do grotesco se mesclarem de maneira paradoxal e complementar no mundo medieval, era forte a tentativa de repressão contra o riso, seja entre os católicos, seja entre as nascentes igrejas protestantes, especialmente João Calvino com suas ideias de predestinação, que dificultavam arroubos humorísticos por parte dos inexoravelmente condenados.  

 O periódico francês ironizava tudo e todos. Essa charge foi quando o Papa Bento XVI renunciou e faz referência aos vários escândalos preconizados pela Guarda Suiça do Vaticano. Os cardeais católicos não mandaram fuzilar os cartunistas.  

Mas o Iluminismo e os avanços sociais, científicos, políticos e culturais abrandaram a antiga religião dominadora, que atingiu o apogeu de seu poderio tirânico na época das Inquisições. Foi preciso um longo caminho até que protestantes, ortodoxos e católicos entendessem que não eram extensão da verdade absoluta e da vontade de punição de seus Deus sobre a Terra. Os fundamentalistas cristãos atuais ainda promovem atos de violência indireta como a demonização da homossexualidade, a exclusão dos que não são “crentes” e a repressão contra religiões consideradas expressão do mal, como o candomblé e isso é condenável. Mas a repressão física e as torturas oficiais foram eliminadas das práticas cristãs, desde o final da Idade Média, ficando restritas a alguns mosteiros e conventos até a época do Concílio Vaticano II (1962-1965), quando a Igreja Católica ficou mais aberta ao mundo e à modernidade. 

Porém o Islamismo não passou por um período de renovação cultural em todos seus segmentos, portanto o fundamentalismo islâmico atual é uma das ameaças à paz mundial, às democracias e às liberdades individuais. Sua intolerância e obscurantismo teológico levam à repressão de seus próprios fiéis que são de outra vertente islâmica, às repressões contra as mulheres  e ao ódio contra as diferenças culturais, especialmente a liberdade e a pluralidade ocidentais. Nessa atmosfera malsã, não há espaço para o humor. 

Os judeus desenvolveram um humor cortante, livre, ácido, inclusive voltado para seus hábitos culturais. Os cristãos aprenderam a alegria de viver, a se expressar nos cantos e danças alegres de missas e cultos, a celebrar a vida em sua plenitude. Os “tempos modernos” fizeram bem para essas duas primeiras religiões monoteístas, mas envenenaram uma pequena parte do islamismo. Essa tragédia é uma perda histórica significativa. Na época medieval, durante o domínio islâmico na Península Ibérica, os califados (governos islâmicos) eram exemplos de tolerância religiosa (judeus, cristãos e muçulmanos viviam juntos), do  desenvolvimento urbanístico, da ascensão das ciências humanas, biológicas e exatas, de formações sociais complexas e sofisticadas. Constantinopla, Damasco, Córdoba, Sevilha, Granada, Alexandria, eram polos civilizatórios reconhecidos e admirados. Por várias razões históricas, uma pequena parcela do islamismo chegou ao século XXI turvado pelos melanomas pseudo-teológicos que moldam um fundamentalismo arcaico, fora dos tempos e dos fluxos civilizatórios contemporâneos. Essas minorias fundamentalistas que se utilizam de atentados terroristas e estados teocráticos repressores para impor seus princípios, comprometem a riqueza vivencial que o islamismo levou para várias culturas e civilizações.  O teólogo Hans Kung faz uma análise erudita e ecumênica sobre as religiões monoteístas em sua trilogia O Judaísmo, O Cristianismo e O Islamismo. Essas três religiões estão mais entrelaçadas histórica, cultural e teologicamente que o senso comum imagina.       
       

Uma questão complexa e oportuna: criticar o islamismo é crime de ódio e criticar o judaísmo e o cristianismo são expressões artísticas?  Quem são os intolerantes nessas histórias?

O problema fulcral dessas minorias islâmicas é a inexistência de auto-crítica, o amálgama entre religião e estado,  negação em se abrir ao mundo e às suas diferenças e riquezas culturais e a incapacidade de rir de si mesmos. 



Jonathan Swift, com sua humor ácido britânico, lembra que os “homens nunca são tão sérios, pensativos e concentrados quanto quando estão sentados no penico.” (Minois, 2003, p. 425).  Essa é a essência escatológica da crítica representada pelos caganers, da Catalunha, onde os grandes líderes políticos, celebridades do esporte e das artes, religiosos e todo tipo de gente são representados por bonequinhos, defecando tranquilamente com uma expressão facial serena e ao mesmo tempo contemplativa. O humor negro é uma declaração intelectual de amor à humanidade. 

O humor é fundamental, mas séculos de zombarias e gargalhadas não eliminaram a astrologia, as crenças supersticiosas ou os fundamentalismos religiosos. “É porque é preciso um mínimo de espírito para apreciar o espírito, e aqueles que o têm já são convertidos; para os outros, o muro da estupidez constitui uma blindagem impermeável à ironia. Portanto a ironia é para uso interno; ela mantém o bom humor, permite suportar a estupidez e absorver os golpes baixos da existência.” (Minois, p. 435).  


A lista dos problemas causados pelo fundamentalismo islâmico: terrorismo, tirania teocrática, submissão das mulheres,  intolerância e perseguição dos muçulmanos moderados, medo da cultura ocidental.

Enfim, o riso é um remédio potente contra a angústia através da qual rumamos paulatinamente para a morte, a explosão de uma risada seria a explosão vital e não fatal ou condenável. O riso pode aumentar as rachaduras da razão pretensamente absoluta e exclusivamente verdadeira. É isso que os fundamentalistas não o suportam, pois a acidez do riso corrói as estruturas que sustentam os mitos das certezas eternas.  

Nem sempre o humor é gratuito, saudável ou favorece as boas relações humanas. O humor também pode exacerbar preconceitos, dogmas, ódios ou racismos. O sarcasmo não é a mesma coisa que a derrisão. Rir de quem não pode se defender ou das vítimas de injustiças ou desgraças é uma covardia. 
Lembro uma entrevista do saudoso Bussunda, humorista do grupo Casseta e Planeta, onde ele afirmou que tudo tem limites, até o humor. Mas esses limites não podem ser delimitados com a violência discricionária e autoritária dos que pensam que são donos da verdade. Ou, pior, dos que estão convencidos de que uma divindade lhes contou a única e exclusiva verdade sobre a Terra.



 OBS.: Deixo claro que faço uma distinção profunda entre o islamismo (uma religião respeitável enriquecedora, como todas as outras religiões que pregam a paz e a tolerância) e o fundamentalismo islâmico, uma perversão tão nefasta quanto aos outros fundamentalismos religiosos ou políticos. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Diário de bordo - Norwegian Spirit


Gosto dos navios. Curto dormir embalado pelas ondas, ler relaxadamente por puro prazer, degustar vinhos com comidas saudáveis, conversar com algumas pessoas, dançar em algumas noites mais inspiradas e olhar demoradamente as paisagens que vão se apresentando ao nosso redor. Não sigo a intensa programação de bordo, forço amizades ou me insiro em bandos organizados. Tampouco jogo no cassino, assisto os shows estereotipados ou me empanturro com gorduras, açúcares e calorias anódinas.

Nesta temporada de viagens tive uma reunião na Universidade de Girona (19 de dezembro), onde fui com o professor Antonio Sarti. Depois fiquei em Barcelona onde passei o Natal sozinho, no hotel. Foi a segunda vez que passei Natal só (a primeira foi em 1986, em Orlando, Flórida, quando era guia internacional da Abreu). É uma experiência exigente, pois nossa cultura exige um Natal familiar e gregário, mas era o que eu tinha de possibilidades, pois o navio zarpou de Barcelona só no dia 26,  regressando em 5 de janeiro. Iria na missa do Galo que, na Espanha, é realizada à meia-noite. Mas senti, à tarde, o início de um leve resfriado que me acompanhou nos próximos dias, então fui dormir. Dia 25, fui à missa na Catedral, celebrada pelo Cardeal de Barcelona. Depois almocei no 111, restaurante do hotel Meridién, localizado na Rambla, que serviu um menu de Natal com muitos vinhos da casa Marquês de Riscal e uma boa cava.

No dia 26 (dezembro de 2014) embarquei no Norwegian Spirit, um navio com 75.904 toneladas, lançado ao mar em 1998 (renovado em 2011), capacidade de 2 mil passageiros, com um sistema auto-denominado free style, sem horários fixos para alimentação e com boas opções de entretenimento e alimentação. Além do bufê 24 horas, há dois restaurantes com cardápios generosos e incluídos no pacote, além de seis restaurantes (dois japoneses, asiático, italiano, francês, carnes), pagos e com exigência de reserva antecipada (custam de 15 a 30 dólares, por pessoa, sendo que pratos como lagosta tem um acréscimo de mais 10 dólares).


O Norwegian Spirit atracado em Funchal, ilha da Madeira.

Viajando só, reservei uma cabine externa sem varanda e me esparramei na cama de casal. Levei um dos volumes de Fundação, do Isaac Asimov para ler, mas deixei para comprar minha literatura de bordo em Girona (onde Sarti me levou numa ótima livraria) e em Barcelona, cidade com opções escandalosas em todas as áreas da vida. Escolhi algumas obras de Joseph Conrad, dois romances de Carlos Sanrune (um espanhol pouco conhecido no Brasil), três obras místicas cristãs (Anthony de Mello, Tomás de Kempis e Raimon Panikkar) e um livro de Amand Puig sobre a simbologia teológica da Sagrada Família, fabulosa Basílica idealizada por Gaudí. A ideia não era ler tudo, mas ter opções de acordo com os humores dos dias e lugares, mas li o bastante.


Camarote 4566, deque 4, externa.

O embarque foi tranquilo e rápido. Cheguei no Terminal Marítimo às 12h45. Despachei a mala, passei pela segurança (raio X), fiz o check in (já preenchera tudo pelo site da Norwegian Cruise Line), peguei o cartão de bordo, subi a escada rolante, percorri o finger envidraçado e às 13h07 entrava na minha cabine. Tudo em 23 minutos! Mais dois grandes navios de cruzeiros estavam atracados, cada um em seu terminal. Aliás, é o normal nos principais portos decentes dos EUA, Europa e Ásia.


Um dos três terminais marítimos de passageiros de Barcelona. Note que o embarque e desembarque é feitos por fingers, como nos aeroportos modernos. 



Vista do porto de Barcelona, à bordo do Spirit.

Naquele caos execrável que é o porto de Santos, já demorei três horas para embarcar. No Rio de Janeiro, demorei mais de uma hora e meia. Devido à falta de infraestrutura, taxas elevadíssimas, corrupção e péssimo serviço portuário, o Brasil é cada vez mais um destino insignificante no florescente mercado de cruzeiros marítimos. Nessa temporada apenas uns 17 navios fizeram cruzeiros na costa brasileira, enquanto no passado chegaram a ser mais de trinta barcos. Porém sem vontade política e condições confortáveis para embarque e desembarque (sem contar as nefastas exigências de sindicatos altamente dúbios) não há negócios florescentes, especialmente no verão brasileiro, com temperaturas acima de trinta graus centígrados e chuvas abundantes que pioram ainda mais as já péssimas condições dos portos.

A maioria dos passageiros do Norwegian Spirit é europeia e norte-americana. Há cerca de 90 brasileiros a bordo, incluindo um grupo com 64 pessoas, coincidentemente com vários conhecidos de Campinas e interior de São Paulo, muitos relacionados com meus velhos tempos de PUC-Campinas.
Passageiros em cruzeiros no inverno europeu em geral são pessoas que já fizeram outros cruzeiros, curtem o clima tépido na costa africana e nas ilhas Canárias e Madeira e apreciam a vida à bordo, cada um curtindo a sua preferência: jogos ao ar livre, cassino, leituras, gadgets (GPS, games, notebooks), boas bebidas e comidas que vão do mediterrâneo ou asiático saudável até mesmo a mescla de carboidratos e açúcares letais que alguns se aventuram a devorar. Zarpamos pontualmente às 17h00. Aliás, o navio cumpriu todos os horários do cruzeiro, rigorosamente. A exceção foi em Málaga, quando saiu com 15 minutos de atraso, algo desprezível.   



Alvorada, nas costas do Marrocos, vista do salão de festas na proa do Spirit. 

CASABLANCA (28 de dezembro) – Estive pela primeira vez no Marrocos em 1998, num congresso da AIEST (Associação Internacional de Especialistas Científicos do Turismo) sediado em Marrakech. Na época conheci Casablanca rapidamente. Dessa vez fiquei o dia todo andando pela cidade que, na verdade, é descartável em termos de destinos turísticos, pois não é uma cidade estética ou urbanisticamente bonita, apesar de algumas praças e jardins razoavelmente monumentais. O que vale é a imensa mesquita Hassan II, situada à beira mar, uns três quilômetros do porto. Entre a mesquita e o porto estão construindo um mega empreendimento imobiliário com prédios comerciais, residenciais, shoppings e hotéis. Já comprometeu a ampla vista que se tinha do templo.  Como era domingo, boa parte do comércio estava fechado e as pessoas aproveitavam para passear com as famílias. Apesar do dia de descanso muçulmano ser na sexta-feira, o Marrocos segue o dia de descanso cristão pela proximidade comercial com a Europa.



O imenso minarete da Mesquita Hassan II, de Casablanca, vista do porto.


Entre o porto e a mesquisa Hassan II, estão construindo um complexo de prédios residenciais, comerciais, shopping e hotéis chamado Casablanca Marina. Uma pequena parte já está pronta. 



Eu, em frente à mesquita e sua praça monumental.  

FUNCHAL (30 de dezembro) – Desde 1979, quando trabalhei na agência Abreu de São Paulo e comecei a viajar no navio Funchal, tinha vontade de conhecer a ilha da Madeira e sua bela capital, cantada e louvada por todos que lá foram (e com razão). Conheci Portugal inteiro, os Açores, Málaca e Macau (antigas colônias portuguesas na Ásia) mas, até então, a Madeira era um não-lugar, uma ilha invisível, para mim. Fui um dos primeiros a desembarcar e, com uma senhora norte-americana e suas filhas (amizade de bordo), contratei um táxi para percorrermos boa parte da ilha: cabo Girão, Curral das Freiras, pico do Areeiro (ponto culminante da ilha) e Câmara do Lobos, onde antigamente os lobos marinhos encontravam refúgio na vila dos pescadores, hoje apenas um simulacro turístico de seu rústico passado. Depois andei pelas ruas de Funchal e almocei no restaurante Londres onde comi o famoso bolo de Caco (pão com manteiga de alho) e a perca grelhada, um peixe delicioso, com legumes, regado a vinho branco. O casario e os prédios mais altos de Funchal se esparramam pelas montanhas, ao longo do anfiteatro natural que forma a baía. O réveillon na ilha é famosíssimo por abrigar navios de cruzeiros e pelo festival de fogos de artifício lançados do alto das montanhas colorindo os céus, mares e desfiladeiros monumentais da ilha, mas esse foi um espetáculo que não assistimos, pois zarpamos às 17h00, do dia 30 de dezembro, para Tenerife.


O Curral das Freiras, escondido em um vale montanhoso. 


Do alto da trilha de onde se vê a área do Curral das Freiras. 


Funchal está em um anfiteatro natural. Do alto vê-se todo o porto. O Spirit é o maior, à esquerda, 


Cabo Girão. Um rochedo que se eleva a 580 metros sobre o mar. 



Uma plataforma de vidro mostra a praia, 580 metros abaixo. 


O Spirit, visto da avenida costeira de Funchal. 


Cristiano Ronaldo nasceu na Madeira. Estou ao pé da estátua do gajo, recém inaugurada.



Zarpando da Madeira. I will be back... i hope so.


TENERIFE (31 de dezembro) -  Entre 1998 e 2000, dei aulas na Universidad de Las Palmas de Gran Canaria. Era um curso de uma semana, sempre em janeiro, para a pós-graduação em Turismo. Falava sobre a pós-modernidade e as tendências do turismo, hospitalidade e entretenimento. Ficava em um apartamento da Universidade e tinha toda a liberdade de ficar mais alguns dias, então na época visitei Tenerife e Lanzarote, ilhas para as quais agora regressava. Como já conhecera o Teide, o majestoso vulcão canário, tendo passado uma encantadora noite em sua encosta, no Parador Cañadas del Teide, a 2.200 metros de altura, aproveitei para conhecer melhor a cidade. Fui num locutório (onde há internet e telefone por satélite, super-baratos) e telefonei para alguns familiares e amigos do Brasil, no último dia do ano de 2014. No navio, cada minuto de telefone custa 5 dólares e o minuto de internet custa de US$ 0,50 a US$ 0,79. Para ter ideia da diferença, no locutório falei uns 25 minutos, em vários telefonemas, gastando meros 3 euros.   


O navio britânico Queen Elizabeth estava em Tenerife, nos aguardando.


O QE, visto de nosso navio, ao atracarmos em Tenerife. 



Companhias como a Costa e Aída (na foto, um navio alemão) organizam tours guiados em bike, saindo direto do navio para ruas e trilhas.


Tenerife, no último dia de 2014. 

REVEILLON – Zarpamos de Tenerife às 17h00 e a nave entrou no clima de final de ano. Fui para o camarote pela TV ver os réveillons da Ásia e Oceania e me preparei para o jantar. O grupo de brasileiros, eu já enturmado com um monte de gente, foi para o Cagney´s, onde comi uma salada de caranguejo e um filé de bisão, algo inédito na minha dieta carnívora heterodoxa. Leve, saboroso e nutritivo. Tudo regado a muito champagne. Depois fomos ao atrium lobby, decorado com balões coloridos, música ao vivo e lotado de gente bem vestida e animada, para a contagem regressiva rum a 2015. Fatalmente lembrei-me do filme O destino de Poseidon, mas a nossa festa foi bem mais feliz. Entre abraços, beijos, votos benfazejos e bebida derramada, rompemos a ano novo. Depois continuamos a brindar e acabamos dançando e cantando em algum lugar da nave.



Há anos não via a amiga Sandra Mara, de Campinas. Fui encontrá-la à bordo e bebemoramos devidamente.

LANZAROTE (01 de janeiro) – Acordei tarde e ao olhar pela janela do camarote (na verdade uma charmosa escotilha redonda) vi a ilha que foi tomada pela lava vulcânica há uns 200 anos, um território árido com cactos, algumas videiras e onde José Saramago morou nos últimos anos de sua vida. Passeei pela pequena vila, olhei o mar límpido e cristalino e voltei a bordo para morgar pelo resto do dia. Demos adeus ao Atlântico norte e regressamos para o Mediterrâneo.

 MÁLAGA (3 de janeiro) – De volta à península ibérica, à jangada de pedra que é berço de minha cultura luso-espanhola, aproveitei o dia frio e ensolarado para, com a amiga Sandra Mara, subir na Alcazaba, o antigo palácio e a fortaleza islâmica que dominavam a Andaluzia, antes dos tempos da reconquista cristã (1492). Depois flanamos pela cidade, fomos ao mercado e bebemos sangria com uns tapas num bar local. Último porto do cruzeiro e pensando nas coisas da vida, a saída do navio deu-me uma melancolia frente à beleza da baía de Málaga, toda iluminada, sob a lua quase cheia platinando o Mediterrâneo e o ar frio gelando as orelhas. Naquela tarde, na internet, soube da morte da professora Eunice Mancebo, da Unirio. Ela deixou uma bela mensagem de ano novo no facebook, dia 1º de janeiro, e depois teve um infarto fatal. Estive com ela em Aveiro e no Rio de Janeiro, em eventos acadêmicos, quando conversamos bastante. Pouco a conheci, muito a admirei. Bebi uma taça de vinho à sua memória e agradeci ter convivido com alguém tão alto astral.



Málaga não é grande (600 mil habitantes), mas possui terminais marítimos decentes. 


Detalhe do finger. Simples e eficiente, mas no Brasil a burocracia e os interesses (sic) sindicais portuários não permitem essa luxúria turística. 


Lua cheia sobre o crepúsculo em Málaga. 




Málaga, último porto de escala do cruzeiro. 

BARCELONA (5 DE JANEIRO) – Chegamos ao porto às cinco da manhã. Acordei às sete, tomei um desjejum leve e às 08h45 deixei meu camarote pela última vez. Peguei o elevador até o deque 7, saí do navio depois de enfrentar uma pequena fila (umas dez pessoas), percorri o finger até o terminal de passageiros, apanhei minha mala na esteira, fui para a fila do táxi (umas cinco pessoas) que estava devidamente organizada pela Polícia Portuária. Às 09h04 entrava no táxi rumo ao hotel. Dezenove minutos para desembarcar com tranquilidade, conforto e segurança.



As malas recebem quatro conjuntos de cores diferentes e são distribuídas em quatro esteiras rolantes...



... em um amplo espaço do terminal. Rápido, eficiente e seguro, como na maior parte dos portos europeus e dos países que respeitam os fluxos de viagens e turismo. Em 2007, fiz um cruzeiro pelo mediterrâneo oriental com a Royal Caribbean e foi a mesma tranquilidade. Destinos turísticos importantes na América do Norte, Ásia e Oriente Médio igualmente possuem facilidades portuárias para passageiros e cargas. Afinal todo viajante merece carinho e atenção longe de casa. Falando nisso, já é quase hora de voltar aos trópicos.   




sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Contas de final de ano




Gosto de fazer um balanço geral ao final de cada ano ou período significativo da vida.  Não são contas financeiras ou meramente materiais, são contas de vida, de experiências, aprendizados, prazeres, dores, tudo o que marcou minha existência e influencia o presente e o futuro.

2014 foi um ano atípico. Pela primeira vez experimentei ser despejado do meu ambiente de trabalho juntamente com toda a turma. A interdição do campus da USP-Leste, no primeiro semestre do ano, me fez sentir no corpo e na alma os graves problemas do setor público em áreas que deveriam ser vitais, como a educação. Esses problemas persistem na saúde, segurança, governança e transportes, mostrando que apesar de alguns avanços sociais ainda temos muito a realizar por uma sociedade mais justa e harmonicamente desenvolvida. Fica o agradecimento público à equipe da ECA (Escola de Artes e Comunicações da USP), que nos recebeu com muita boa vontade e disposição no Butantã, na Cidade Universitária. Essas pessoas dedicadas e abertas fazem a Universidade florescer e evoluir. 

Curti  a Copa do Mundo. Assisti a dois jogos ao vivo (no Mineirão e na Arena Corinthians) e vi pela TV, estarrecido, a devastadora derrota do Brasil perante a Alemanha. 7 a 1! O lado bom é que a festa foi boa, com a imagem do país salva, apesar dos atrasos, improvisos e do mau humor reinante em boa parte do território nacional. Esse mau humor, envenenado pelo ressentimento e pelos ódios arcaicos, foi turbinado pela campanha política mais polarizada desde 1989, com surpresas e reviravoltas dignas de um filme do Costa Gavras. 


Edmur Stoppa, Ricardo Uvinha e eu, na Arena Corinthians, jogo entre Bélgica e Coreia do Sul. 

 A campanha deixou claro o quanto o Brasil ainda tem de reacionário e jeca e o quanto se desvia dinheiro, influência e ações para objetivos particulares, sejam pessoais ou de grupos mafiosos, em quase todos os partidos políticos, em várias instituições em geral, igrejas etc. Claro que um erro não justifica os outros e a corrupção é hedionda, seja em que lado for. 

Mas os avanços sociais no país são reconhecidos no exterior e em parte do território nacional que valoriza um desenvolvimento mais justo, equilibrado e sustentável. Algumas discussões mais fortes acabaram em trocas de insultos nas redes sociais e as mais extremistas eu as resolvi simplesmente cortando a “amizade”, na verdade gente que eu mal conhecia. Alguns poucos mostraram seu ressentimento, inveja e a má-fé, reflexo de vidas frustradas. As pessoas se traem pelas palavras, pelos textos e atitudes. Sem contar o mau humor inerente aos reacionários e medíocres. Isso vale para todos, direita e esquerda mostraram as suas piores facetas nos bate-bocas repletos de boatos, superficialidades, preconceitos e ignorâncias. Dei boas risadas com as provocações e com algumas respostas obtusas e raivosas. Os mais descolados, informados e bem humorados ignoraram os coices ou responderam com a mesma cortante e certeira objetividade irônica ou iconoclasta. Até o Papa Francisco repete que bom humor é fundamental para uma vida plena e saudável. Oremos e aprendamos a rir, de nós mesmos (em primeiro lugar) e dos outros...  

O ano foi marcado por algumas boas viagens. Estive duas vezes em Portugal. Em maio, fui para o III INVTUR, em Aveiro, onde estiveram vários colegas da EACH-USP; em novembro, para o 3ª ISITH, na cidade de Seia, ao pé da Serra da Estrela, onde tive o honroso convite para ser Chair do Seminário. Ir a Portugal, para mim, é uma saudável volta às memórias juvenis, quando trabalhava na Abreu Turismo no Brasil (São Paulo, Rio e Campinas). Também visito um primo, o Gabriel, que lá vive há mais de vinte anos, casado, duas filhas e sempre uma boa conversa sobre as coisas da vida. Outra visita importante é ao João Pereira, hoje com 75 anos de idade. João era Director de Cruzeiros do navio Funchal, onde trabalhamos juntos por quatro temporadas (1979 – 1985) e tornou-se um grande amigo. Sempre nos encontramos no Rossio e almoçamos em um pequeno restaurante, o Ano Novo, algo que já virou um ritual. Entre garfos e copos falamos da história, dos espaços e das memórias vivenciadas ou imaginadas em nossos mundos.

A viagem aos Estados Unidos (Mobile, Alabama), para o Congresso da World Leisure Association, com meu amigo Ricardo Uvinha, foi marcada por uma grande perda. Nosso aluno da EACH, Douglas Ribeiro, afogou-se na piscina e morreu após seis dias na UTI. Poucas vezes senti tanto a morte de alguém que não fosse parente ou amigo íntimo. Tudo o que acnteceu escrevi neste blog, em uma postagem anterior. Deixo uma referência respeitosa à memória do Douglas e um profundo reconhecimento à comunidade de Mobile, às autoridades norte-americanas envolvidas, à EACH-USP pelo apoio que nos deu e aos alunos e alunas do curso de Lazer e Turismo que souberam homenagear seu colega com dignidade e ternura.

Lancei livros, publiquei artigos, fui a bancas e eventos em João Pessoa, Caxias do Sul, Rio de Janeiro, Fortaleza... Nossa área de turismo cresceu ainda mais com a autorização dos doutorados da UNIVALI-SC e da Universidade de Caxias do Sul (RS), a serem implementados no início de 2015. Nosso mestrado da EACH foi aberto no início de 2014, e claro que nosso objetivo futuro é também criar um doutorado. 


 Livro organizado pelo Alexandre Panosso e por mim, lançado em inglês pela Springer (Alemanha).

 Ainda há questões para resolver em nossa área acadêmica, o Turismo. As gerações mais velhas, da qual já faço parte, precisam compreender que as novas gerações são importantes e devem ser incentivadas em seus trabalhos de ensino, extensão e pesquisa. Anda falta uma unidade maior entre nossos programas de pós-graduação e uma disponibilidade mais generosa em relação aos outros. Analisando objetivamente, somos uma área pequena e com pouca relevância no cenário acadêmico nacional. Nosso programa mais conceituado na CAPES (o da Univali-SC, todos os outros estao entre 3 ou 4) tem nota cinco (a maior é sete), o que é normal haja vista a juventude desses cursos de pós-graduação. Não chegamos a uma dezena de programas em todo o Brasil e temos um longo caminho pela frente. Portanto, temos que nos unir mais, trabalhar juntos e incentivar nossos valores internos com espírito de equipe, ou então seremos uma área pequena, frágil e dividida. Há que superar vaidades paroquiais e suscetibilidades arcaicas, temos que pensar grande, de maneira competente e magnânima para nosso futuro, afinal turismo (e hospitalidade, cultura, meio ambiente, lazer) é prazer e um amplo leque de possibilidades que apenas dependem de nossa imaginação, trabalho e vontade. 

Termino o ano no Mediterrâneo, um dos lugares que mais gosto no planeta (depois do Brasil).  Estou em Barcelona (26 de dezembro), daqui a pouco embarco no navio Spirit (NCL) e só volto ano que vem.  



Que 2015 seja um ano ainda melhor para todos nós, que convivamos mais com nossos parentes, amigos e colegas, que saibamos superar as atribulações e tentações e fujamos dos afetos desordenados que tantos males causam a nós mesmos. Muita paz, amor, tesão, um monte de prazeres físicos, espirituais e intelectuais para todos e todas.