quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Shibumi - um sofisticado clássico de espionagem



Há uma livraria em Santos, na avenida Ana Costa, quarteirão da praia, que me excita ótimas lembranças. Entre 1979 e 1985, trabalhei a bordo do navio Funchal, um barco com dez mil toneladas fretado pela Abreu para cruzeiros no Brasil. Eu era do staff Abreu de bordo, com várias tarefas interessantes e mordomias atraentes, o que permitia ler nas horas vagas e eu me abastecia com os livros justamente naquela livraria, hoje uma franquia da Saraiva. 

Nessas férias passei uns dias em Santos e lá fui procurar algo prazeroso para ler e ao meu estilo. Achei um livro meio raro. É comum encontrar preciosidades em livrarias, sebos e feiras. É mistério insondável como encontramos um objeto, um texto ou artesanato, gostamos muito da peça, mas deixamos para comprar em outro lugar e ... nunca mais a encontramos. Então, assim que vi Escalada mortal (The Eiger Sanction, no original), do Trevanian, comprei e degustei. 

Trevanian foi um autor norte-americano que evitava entrevistas e escrevia com pseudônimo, criando um mistério que engendrou várias teorias conspiratórias. Seu nome real era Rodney William Whitaker (1931-2005), professor de cinema nos EUA, autor de oito livros com o pseudônimo Travanian, dois livros assinados como Nicholas Seare e cinco livros de ensaios com seu nome verdadeiro, Rod Whitaker. Escalada Mortal foi seu primeiro romance. 



As informações sobre ele, no International Movies Data Base (IMDb) estão no link: 

 
E na wikipidia,em inglês:


O personagem principal desse primeiro livro é Jonathan Hemlock, linguista, professor universitário, cínico, alpinista, hedonista, arrogante e assassino profissional. É uma caricatura de espião hiper-treinado, dotado de habilidades fantásticas e extremamente desenvolvidas. Entre suas muitas capacidades, Hemlock era capaz de manter longamente seu estado erétil, apesar de não sentir prazer algum com suas inúmeras mulheres. Mais  impressionante que isso, apenas seus olhos instigantes, seja lá o que isso signifique. 

Hemlock (cicuta, em inglês) é a primeira versão do que seria, em sua obra-prima, seu grande personagem literário: Nicholai Hel. Filho de mãe russa e pai alemão, vivendo em Xangai da década de 1930, o garoto prodígio desenvolve nas ruas e nas suas truncadas relações sociais que antecedem a II Guerra, seu lado psico-emocional e as suas habilidades materiais como os dotes linguísticos, raciocínio lógico, uma sensibilidade extremada para o perigo, além de ser frio, místico, especialista em Go (um jogo estratégico japonês), explorador de cavernas e também assassino profissional, atuando contra terroristas e independentemente de governos ou agências. É como um ronin mutante, em plena Guerra Fria, vivendo com glamour e sofisticação. O livro Shibumi, lançado em 1979, tornou-se um sucesso internacional na sua época. Li há uns 30 anos e mal lembrava os detalhes do enredo, cenas etc., mas persistia claramente a sensação de uma leitura instigante e enriquecedora. 
 
Sempre gostei de livros de espionagem (Frederik Forsyth, David Morrell), táticas de guerra (Tom Clancy), terror (Poe e Lovecraft), ficção científica (Clarke, Asimov, Philip Dick...) e os carismáticos psicopatas como Dexter e Annibal Lécter. Shibumi é especial por ser uma mescla de tramas políticos internacionais, relatando o drama da formação pessoal integral e as lutas pela sobrevivência de um jovem em um mundo caótico que o envolve vorazmente. É um romance de formação de um agente da semi-organizada violência internacional, com fortes críticas ao cinismo da política da Guerra Fria, aos jogos de poder e espionagem e às traições e interesses nefastos de corporações, governos e seres humanos.  Ler e curtir A Escalada Mortal, fez com que eu relesse o clássico Shibumi... e o prazer foi maior que o da primeira vez. 


 A maturidade me fez apreciar mais profunda e amplamente as ironias, os paradoxos e as críticas cínicas feitas em uma reflexão lúcida e fria sobre a problemática contemporânea. Trevanian relata nosso mundo de cíclica violência, os desafios globais cada vez mais complexos e as posturas venais e superficiais por parte de uma significativa parcela da população alienada dessas questões, enquanto outros se engalfinham pelo poder. O caos e as organizações que lucram com o caos permeiam a vida de Nicholai Hel, descrito como um anti-herói medieval imerso em sua disciplina e dignidade. Especialista em matar sem armas, sempre disponível para belas mulheres, desde que sem compromisso, sem pátria ou nacionalidade (mas com cinco passaportes falsos), Hel se cerca de um luxo austero, é um esteta com ótimo gosto, um homem frugal mas exclusivo, com uma concubina mestiça igualmente especial e fascinante. Em sua vida tudo é feito com liberdade e o máximo de perfeição, seja sua alimentação, os exercícios físicos nas cavernas (espeleologia é mais discreto que montanhismo, mais desafiador por ser na escuridão e mais próximo de nossos medos primordiais), as bebidas alcóolicas raras, o sexo (ele é especialista em exercícios sexuais e sente prazer com as mulheres), a meticulosa jardinagem ou a restauração de seu fortim nas montanhas bascas, entre a França a Espanha.


O texto já aponta a importância das novas tecnologias de informação em contraste com a crescente alienação das massas pelas mídias superficiais e comprometidas com o lucro fácil. Ao mesmo tempo ele realça a importância de uma educação que valorize os aspectos intelectuais mais sutis, as habilidades técnicas, a disciplina constante e a estabilidade emocional, assim como um desenvolvimento espiritual enriquecedor.  

As lutas de Hel são contra o terrorismo islâmico ou esquerdista da época, mas também contra as agências de informação dos Estados Unidos (a CIA é o alvo preferencial), contra os abusos da ex-União Soviética, as atrapalhadas das agências europeias (França, Reino Unido) e a estupidez da ditadura franquista. Trevanian já vislumbra o século XXI:

Já houve um tempo na comédia do desenvolvimento humano quando a salvação parecia estar na direção da ordem e da organização ,e todos os maiores heróis ocidentais organizavam e dirigiam seus seguidores contra o inimigo: o caos. Agora estamos aprendendo que o último inimigo não é o caos, mas a organização; não a divergência, mas a similitude; não o primitivismo, mas o progresso. E o novo heróis, o anti-herói, é alguém que transforma em virtude o ataque contra a organização, que destrói os sistemas. Percebemos agora que a salvação da espécie se encontra na direção do niilismo, mas ainda ignoramos até que ponto.” (Shibumi, pág. 337).

Gostei tanto de reler (e entender melhor a complexidade do texto) que procurei mais informações sobre Trevanian. E encontro no oráculo universal (o velho google) que Nicholas Hel renascera pelas mãos de um outro autor, já que Trevanian morreu em 2005. Mas quem, pensei, teria competência estilística e sensibilidade temática para reviver a um personagem tão insólito e marcante, em termos de caráter, ironias e atitudes? 

O nome é Don Winslow, um autor que eu pensava, erroneamente, desconhecer. Ele escreveu 16 romances, entre eles Selvagens (2010) e Kings of Cool (2012). Sua novela inspirada em Shibumi foi publicada em 2011, com o título de Satori. Ambos termos numinosos da língua japonesa que remetem a estados de mente ou espírito alcançados por alguns iniciados, em variados níveis de percepção e fruição. 


 O texto de Winslow é direto, sarcástico e sem grandes concessões ao politicamente correto. Ele mostra a marginalidade da América descolada, hiper-moderna e sensual, com suas neuroses e traumas intrinsicamente ligados à violência. Lembra o breve romance de Raymond Carver, Short Cuts (transformado em file dirigido por Robert Altman, em 1993) e, de certa forma, pelo estilo literário, Onde os velhos não tem vez, de Cormac McCarthy (No country for old men, de 2005, levado ao cinema em direção dos irmãos Cohen, em 2007, ganhador de 4 Oscars, inclusive o de melhor filme). Mas McCarthy é um dos grandes clássicos norte-americanos, acima da média alta e possuidor de um texto incomparável.
 
 Winslow acertou plenamente seu estilo em Selvagens e Kings of Cool. Selvagens virou um delicioso filme dirigido por Oliver Stone (2012), aproveitando a onda de violência mexicana, o glamour inesgotável do sul da Califórnia e o  crescimento do cinismo global após atentados de 2001. Lembro que que me impressionou pelo hedonismo, ousadia e violência estética, lembrando inexoravelmente Tarantino. É daí que conhecia, mesmo sem plena consciência, pelo menos uma obra de Winslow.  Com esse histórico, ele credenciou-se a escrever a continuação do anti-herói de Trevanian. Satori está na minha lista de encomendas da Amazon, pois ainda não chegou ao Brasil. 


A conferir se a continuidade bastarda de Satori mantém o tônus e densidade de Trevanian.

Mais informações sobre Don Winslow nos sites:

 
 

 Bibliografia:

Shibumi. Trevanian. Rio de Janeiro: Nórdica, 1979 (esgotado, tente nos sebos)

Escalada mortal. Trevanian. São Paulo: Landscape, 2007. 

Selvagens. Don Winslow. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012.

Kings of cool. Don Winslow. Rio de Janeiro: Intrpinseca, 2013. 


 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

São Paulo: utopias, distopias e neuroses urbanas.



Nos últimos anos da última ditadura militar brasileira (1964-1985), em plena ressaca econômica após as promessas frustradas dos anos dourados de prosperidade econômica, surgia uma das primeiras distopias brasileiras. O romance Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (lançado em 1981), desenhava uma estranha e inédita imagem de um país arruinado e caótico, situado em um futuro próximo. A ditadura militar, em seu auto-celebrado Milagre Brasileiro da década de 1970, propunha um futuro glorioso de um Brasil que mostrava sua força sendo tricampeão de futebol (1970), campeão de Fórmula 1 (com Emerson Fittipaldi), detentor de mulheres maravilhosas que conquistavam troféus de miss universo e que se fechava na sua imensidão cabocla e semi-rural, em busca de sonhos satisfatórios e glamours urbanos, especialmente no sul-sudeste maravilha.  


Em meados dessa década de 1970, a primeira grande crise mundial do petróleo acabava com os sonhos nacionalistas e megalomaníacos dos militares brasileiros e dos seus tecnocratas plenos de pretensa sabedoria. O irônico é que a origem daquela crise era o aumento dos preços dos barris de óleo. Atualmente, em 2015, a preocupação dos países em desenvolvimento produtores de óleo é justamente o baixo preço desses mesmos barris, pois diminui a entrada de divisas e causa instabilidades econômicas como na Rússia, Venezuela, Brasil... 

Os anos 1970 em 1980 foram de crises cíclicas, inflação, desemprego e carestia. Nesse contexto Brandão descreve uma realidade brasileira ficcional nos seguintes termos: “Lembra quando líamos os livros (de ficção científica) de Clarke, Asimov, Bradbury, Vogt, Vonnegut, Wul, Miller, Wyndham, Heinlein? Eram supercivilizações, tecnocracia, sistemas computadorizados, relativo – ainda que monótono – bem-estar. E aqui, o que há? Um país subdesenvolvido vivendo em clima de ficção científica. Sempre fomos um país incoerente, paradoxal. Mas não pensei que chegássemos a tanto. O que há em volta de São Paulo? Um amontoado de acampamentos. Favelados, migrantes, gente esfomeada, doentes, molambentos que vão terminar invadindo a cidade. Eles não se aguentam muito além das cercas limites. Não há o que comer!” (pág. 92-93)


A cidade de São Paulo é a estrela decadente do romance. Um ar seco, quente, malsão, paira sobre a imensa mancha urbana onde o verde foi exterminado devido às sistemáticas agressões contra o meio ambiente. O discurso ufanista enaltecia a potência e majestade da locomotiva brasileira, São Paulo arrastando o país, com sua economia e vontade pétrea de vencer. Atrás vinham, a reboque, os vagões da Federação, dos mais nobres aos mais simples e acanhados. O que restou desse delírio são problemas toscos, um caos a mais no cenário nacional, uma cidade tão miserável e violenta como qualquer dos rincões desprezados, distantes apenas no geo-imaginário dos filhos bastardos dos barões quatrocentões.   

São Paulo é um oximoro urbano pós-industrial.

As críticas contra os desvarios da ditadura não eram exclusividade dos escritores, músicos e jornalistas. O humor denunciava e ridicularizava os laços emotivos, piegas e edulcorados de um regime decadente e atavicamente jeca. Em junho de 1969, surgia no Rio de Janeiro O Pasquim, um jornal alternativo que atingiu a tiragem de 20 mil exemplares em todo o Brasil. Tornou-se o principal veículo crítico ao regime militar e marcou uma época crítica da repressão política e da abertura gradativa rumo à nova democracia. 

Em São Paulo, um marco foi o surgimento do Circo Editorial, em 1984, que lançou charges, histórias em quadrinhos e uma estética urbana paulistana saída dos traços de Angeli, Chico Caruso, Glauco, Laerte, Luiz Gê, Paulo Caruso e Alcy. A série em quadrinhos Os piratas do Tietê, destila uma violência absurda e surreal, tendo como eixo cênico principal as águas mortas do rio Tietê. “Cidade multicultural e cosmopolita, principalmente a partir do início do século XX, São Paulo desenvolveu-se com a chegada de imigrantes de várias partes do mundo e migrantes de outras regiões do país. A mistura de raças, crenças e comportamentos gerou um humor distinto, no qual estão presentes o comportamento esquentado dos italianos, a teimosia dos espanhóis, a ironia judaica, a aspereza do concreto e uma mentalidade racional, fria e objetiva de uma urbe voltada para o trabalho. As tribos que cultivam determinados hábitos (roqueiros, hare krishnas, militantes políticos, playboys, etc.) cruzam-se em calçadas, bares e edifícios”. (Humor Paulistano, São Paulo: SESI, 2014, p. 413) 

Piratas do Tietê, criação de Laerte

São Paulo, juntamente com Rio de Janeiro,  é personagem problemática principal dos telejornais, novelas, romances, quadrinhos, filmes e teorias acadêmicas. Congestionamentos, assassinatos, sequestros, enchentes, luxo, cultura, artes e riqueza marcam o imaginário sobre a maior cidade da América do Sul. 

No Rio de Janeiro, as mônadas mutantes da irreverência no humor social, cultural e político, brotaram em1978, nos corredores e bares da Faculdade de Engenharia da UFRJ. Marcelo Madureira, Helio de La Peña, Roberto Adler, Claude Mañel e Bussunda fundam O Planeta Diário; em 1992, surgiu a revista Casseta & Planeta, de circulação nacional, que depois originou o programa de TV na rede Globo, a banda musical homônima e outras aventuras midiáticas como as Organizações Tabajara. A irreverência e as provocações atingiam toda a sociedade. Inexiste o politicamente correto. Os negros ainda são tratados de forma cafajeste pelos sinhozinhos "bacanas" e enturmados com as favelas; as mulheres são instrumentos de prazer e contemplação, escravas dos ditames da beleza oficial preconizada pelas redes de promotores, fotógrafos, criadores de modas e tendências artísticas e culturais. As que não se adequam ao estereótipo, ou não possuem proteção nas altas esferas do show lúdico-político, são simplesmente ignoradas ou servem de "escadas" para piadas machistas, sexistas, preconceituosas e vulgares. Mulheres muito gordas ou magérrimas, novinhas e tolas ou velhas e agressivas, vestidas como mendigas ou embrulhadas como peruas engalonadas, feministas exalando estrógenos ou sóbrias desfilando virilidade e atitude, todas eram um plantel de beleza, humor, crítica e acidez comportamental. Não é inocente a letra de Chico Buarque "Joga bosta na Geni, ela é feita para apanhar, ela é boa de cuspir, ela dá para qualquer um ,maldita Geni." (1978). O humor iconoclasta atinge democraticamente os diversos segmentos sociais.

Enquanto isso, na dura realidade cotidiana parte da população urbana brasileira ainda reproduz as esferas do poder patriarcal, latifundiário, branco, cristão, detentor do poder econômico e político e forte influente do poder policial e militar. Os animais, os seres humanos e a natureza são propriedades dele, com a proteção do Estado e as bençãos de Deus, quase como no tempo de Casa Grande & Senzala, do Gilberto Freyre. Pensam que controlam tudo, então o real se esvai por entre os vãos das ruas, músicas e textos que abalam a ordem tão recente e dubiamente estabelecida.

De repente, entre a Copa do Mundo e as Olimpíadas, - e apesar dos avisos dos especialistas e acadêmicos -, surge crise hídrica para assombrar a orgulhosa urbe que, dias atrás, pensava a seca como praga endêmica do nordeste subdesenvolvido, carma ou castigo dos primos pobres e atrasados, motivos de piadas e olhares superiores, mera multidão ignóbil, ignara e ululante, geralmente petulante.


A seca faz parte de um ciclo meteorológico agravado por problemas ambientais que se acumularam por décadas graças ao descaso, à demagogia e à bonomia de gerações de políticos e eleitores alienados e deslumbrados com sua Nova Iorque semi-tropical. Brandão antecipa, em sua distopia, o descaso e a irresponsabilidade face à catástrofe denunciada: “Esta emergência é esperada há algum tempo. Algum? Eu nem tinha começado neste escritório e já lia sobre os constantes sinais vermelhos que a natureza vem emitindo. É o alerta, declaravam os cientistas. Os poucos cientistas que tinham sobrevivido  e tentavam criar defesas. Cientistas. Categoria mínima, marginalizada. Numa fase quase pré-histórica, o povo era alheio aos seus avisos.” (pág. 27). 

Rua Vergueiro, ao crepúsculo.

Assim como no romance, desde os primeiros anos do século XXI, sucessivos governos, instituições e a mídia, ignoraram ou subestimaram as sombrias previsões de geógrafos, ambientalistas, engenheiros e sociólogos. Esgotos continuaram a poluir os rios, mananciais foram invadidos e destruídos, a mata ciliar dos rios desapareceu, terrenos foram impermeabilizados por construções que violentaram todos os códigos de obras e edificações urbanos, submetidos aos interesses predatórios de empreiteiras, construtoras e à uma visão carente de planejamento urbano e qualidade de vida. O transporte público foi desprezado durante anos em favor da política insana de carros particulares. As ferrovias foram sucateadas e as linhas de metrô lentamente evoluem, em descompasso com outras cidades ao redor do planeta. O egoísmo, a ganância e a indiferença marcam a atitude média urbana  nacional. A falta de uma visão cidadã e de uma ética vivenciada por todos no cotidiano, provoca conflitos em seus condomínios, bairros e ruas. Poucas áreas de lazer são realmente públicas, poucas praças são acessíveis à toda a população e só recentemente os veículos coletivos, os ciclistas e pedestres recebem um pouco mais atenção do poder público. Uma imensa oferta de entretenimento, cultura, gastronomia e vida noturna fabulosa,  convive com os gargalos terríveis de uma infra-estrutura frágil e tímida, perante os desafios agudizados pela omissão ou pelo mal feito. 


 A distopia de Brandão termina de acordo com os mais tenebrosos pesadelos dos paulistanos no início de 2015: “Um ano sem gota de água e as represas de São Paulo esgotaram. Apavorado, o povo fazia promessas, enchia as igrejas. Organizavam procissões, novenas, romarias. Inúteis. Poços artesianos começaram a ser abertos às pressas, às centenas. Por muito tempo, a secretaria de obras trabalhou em poços. Todas as verbas foram desviadas para os programas de água. Cada estado contou consigo, não havia possibilidade de ajudar o outro. O problema era igual para todos, estavam à beira da calamidade. Charlatões, fazedores de chuva, enriqueceram. As chuvas não vieram.”  (pág. 99-100).

Cantareira ressequida...

Provavelmente o final da história não será tão trágico e apocalíptico quanto o imaginado em Não verás país nenhum. Mas as consequências serão graves, os prejuízos imensos  os sofrimentos marcarão essa geração. Os mais ricos sairão nos piores dias do racionamento de água para suas casas secundárias ou fazendas; os mais pobres serão os primeiros naturalmente expulsos pela falta da mais vital substância do universo que é a água, subproduto do ar, da atmosfera que nos protege. Os tempos de energia e água a preços razoáveis acabaram. Por todo o país as tarifas aumentarão com base em argumentos inexoráveis como a “crise hídrica”, a necessidade de mais obras e manutenção, o aumento da população e outras razões que a tecnocracia descobrirá a cada desdobramento da crise. 

Tudo isso nos ensinará algo ou continuaremos a relevar fatos e dados, a postergar decisões impopulares e a exercer a demagogia e os discursos fáceis e agradáveis aos políticos oportunistas? A realidade brutal poderá servir para despertar a consciência individual em prol dos interesses coletivos e de uma ética que seja entendida e exercida de maneira natural por toda a sociedade. 
São Paulo, na terceira década do século XXI, será outra cidade. Espero que melhor e mais solidária, inteligente e articulada.


Textos consultados:

BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Não verás país nenhum. São Paulo: Círculo do Livro, 1982.

DAPIEVE, Arthur (Org.). Antologia Casseta Popular. Rio de Janeiro: Desiderata, 208.


Humor Paulistano - A experiência da Circo Editorial 1984-1995. São Paulo: SESI, 2014.




sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo - Humor vital, humor mortal



 

No dia 7 de janeiro de 2015, houve mais um massacre, mais uma vez anunciado, contra seres humanos desarmados, porém muito perigosos por serem humoristas. Máfias, milícias, polícias, exércitos, guerrilheiros, bandidos, psicopatas, religiosos, profissionais da saúde, políticos e todo tipo de gente promovem matanças, individuais ou em grupo, todos os dias. Muitos holocaustos chegam aos meios de comunicação de massa e nas redes sociais, entram para a história ou são romanceados pela literatura, pelas histórias em quadrinhos ou pelo cinema. Outras chacinas ficam incógnitas, perdidas em recantos geográficos insignificantes ou inacessíveis,  esquecidas nos desvãos das notícias e dos relatos, mas nem por isso os que sofreram a violência sentiram menos a humilhação, as dores e a perda de tudo o que possuíam em suas vidas, inclusive a própria. 

Todas essas perdas são sofríveis. A violência é estúpida, brutal, geralmente irracional, mesmo quando planejada por engenheiros e técnicos em destruição em massa e preconizadas por dirigentes altamente intelectualizados, sejam os políticos, militares, acadêmicos, religiosos ou simplesmente marginais em busca de algo que – imaginam - dará sentido às suas miseráveis existências. Toda violência é também absurda, portanto risível. 

Por isso os seres humanos na redação da Charlie Hebdo, em Paris, no dia 7 de janeiro eram desarmados e perigosos. Usavam o riso, o humor para atacar as bases dos fundamentalismos e certezas que alicerçam os muros da repressão, do poder, ou seja, da violência. Eu posso matar, torturar, condenar, reprimir, mas você não pode rir de mim. Seu riso é uma arma tão ou mais mortal que minha espada, meu fuzil, minha granada, meus instrumentos precisos e engendrados para produzir submissão e dor. Por isso, se você rir ou, pior, provocar o riso, você merece morrer. 



A questão subjacente ao massacre do periódico Charlie é o humor. Os totalitários, os boçais, os fundamentalistas, os que possuem certezas pétreas não riem. Não admitem o riso. Não suportam o sorriso, a ironia, a gargalhada, a derrisão. Por que?

Há uma vasta bibliografia sobre o riso, o humor, o cômico. Usarei principalmente a História do riso e do escárnio, de George Minois (São Paulo: UNESP, 2003) para embasar minhas risíveis ideias sobre a ferocidade humana contra seu próprio senso de humor. 

No ocidente o riso é dionisíaco, vem das sombras dos tempos mitológicos gregos, das festas rurais de dezembro promovidas pelos camponeses da Ática. Eles saiam em procissões cantando refrões obscenos, plenos de zombaria, carregando enormes phallos (pênis) que são os símbolos da fecundidade da Mãe Terra (Gaia ou Gea). A festa terminava com um kômos, uma correria de bandos embriagados que cantam, riem e interpelam as outras pessoas. É dessa komôdia que surge a comédia. O riso, nas brumas do tempo, é associado à agressão verbal, com as forças obscuras da vida, do caos, da subversão. É o carnaval, a ruptura cerimonial e ao mesmo tempo caótica com o tempo comum. Mircea Eliade, Jean-Pierre Vernant, James G. Frazer, Pierre Dumézil e outros estudiosos da mitologia pesquisaram esses tempos primordiais. Aristóteles entendia que a comédia se originou nos cantos fálicos dessas farras campestres dionisíacas. Umberto Eco, em O nome da Rosa, mostra de modo romanceado como teria desaparecido a Comédia de Aristóteles, que seria a segunda parte da Poética, que trata tragédia. A comédia já era ferozmente condenada nos tempos do cristianismo medieval. Porém, o mundo clássico expressa que “o riso, como irrupção de forças vitais irracionais, está no centro da tragédia humana. Essa ideia seduziu a época contemporânea, tão marcada pelo ambíguo.” (Minois, 2003, p. 37). 

Minois divide a sua história do riso em três períodos: 1) o riso divino dos antigos gregos; 2) o riso diabólico, satanizado pelo cristianismo medieval movido pela afirmação dúbia e não fundamentada de que “Cristo nunca riu”. Enquanto o riso grego sacralizava o mundo, o riso diabólico o dessacralizava, sendo portanto condenado pelas igrejas cristãs; e 3) o riso humano, oriundo das crises de consciência da mentalidade europeia, origem do pensamento moderno. 

Na antiguidade (século IV a.C.), é Demócrito quem radicaliza o riso, fazendo dele uma crítica do conhecimento  e a expressão de um ceticismo absoluto. Para ele “a derrisão é a constatação da incapacidade radical do homem de se conhecer e conhecer o mundo. Nada merece ser levado a sério, já que tudo é ilusão, aparência, vaidade – tanto os deuses como os homens.” (Minois, 2003, p. 62). Há ainda o riso da critica social que os cínicos, como Diógenes, expressam para abalar as hipocrisias e certezas de suas sociedades. 



Se quisermos uma definição de humor, a de Pìerre Daninos é eloquente e ampla: “É antes de tudo, na minha opinião, uma disposição de espírito que nos permite rir de tudo sob a máscara do sério. Tratar jocosamente coisas graves e gravemente coisas engraçadas, sem jamais s elevar a sério, sempre foi próprio do humorista. Graças a isso, ele pode, com frequência, dizer tudo, sem parecer tocá-lo.” (Minois, 2003, p. 78, 79).  Para Minois, “o humor surge quando o ser humano se dá conta de que é estranho perante si mesmo. O humor nasceu com o primeiro ser humano, o primeiro animal que se destacou da animalidade, que tomou distância em relação à si próprio e achou quer era derrisório e incompreensível.” E isso é intolerável para os fundamentalismos. 

O cristianismo, no período medieval, era a religião dominante que prevaleceu sobre o judaísmo, apossou-se do pensamento grego e dominou as estruturas administrativas e jurídicas do decadente império Romano. Como religião homogênea de um período marcado pela fragmentação geopolítica e pelos perigos de uma longa decadência imperial, tornou-se apologético, dominador e cioso de seus direitos conquistados. Não admitia gracejos, dúvidas ou liberdades individuais. Um dos mais severos adversários do riso na cristandade nascente foi São João Crisóstomo (334-407). Para ele o riso era satânico, infernal e pecaminoso. Apesar do cômico e do grotesco se mesclarem de maneira paradoxal e complementar no mundo medieval, era forte a tentativa de repressão contra o riso, seja entre os católicos, seja entre as nascentes igrejas protestantes, especialmente João Calvino com suas ideias de predestinação, que dificultavam arroubos humorísticos por parte dos inexoravelmente condenados.  

 O periódico francês ironizava tudo e todos. Essa charge foi quando o Papa Bento XVI renunciou e faz referência aos vários escândalos preconizados pela Guarda Suiça do Vaticano. Os cardeais católicos não mandaram fuzilar os cartunistas.  

Mas o Iluminismo e os avanços sociais, científicos, políticos e culturais abrandaram a antiga religião dominadora, que atingiu o apogeu de seu poderio tirânico na época das Inquisições. Foi preciso um longo caminho até que protestantes, ortodoxos e católicos entendessem que não eram extensão da verdade absoluta e da vontade de punição de seus Deus sobre a Terra. Os fundamentalistas cristãos atuais ainda promovem atos de violência indireta como a demonização da homossexualidade, a exclusão dos que não são “crentes” e a repressão contra religiões consideradas expressão do mal, como o candomblé e isso é condenável. Mas a repressão física e as torturas oficiais foram eliminadas das práticas cristãs, desde o final da Idade Média, ficando restritas a alguns mosteiros e conventos até a época do Concílio Vaticano II (1962-1965), quando a Igreja Católica ficou mais aberta ao mundo e à modernidade. 

Porém o Islamismo não passou por um período de renovação cultural em todos seus segmentos, portanto o fundamentalismo islâmico atual é uma das ameaças à paz mundial, às democracias e às liberdades individuais. Sua intolerância e obscurantismo teológico levam à repressão de seus próprios fiéis que são de outra vertente islâmica, às repressões contra as mulheres  e ao ódio contra as diferenças culturais, especialmente a liberdade e a pluralidade ocidentais. Nessa atmosfera malsã, não há espaço para o humor. 

Os judeus desenvolveram um humor cortante, livre, ácido, inclusive voltado para seus hábitos culturais. Os cristãos aprenderam a alegria de viver, a se expressar nos cantos e danças alegres de missas e cultos, a celebrar a vida em sua plenitude. Os “tempos modernos” fizeram bem para essas duas primeiras religiões monoteístas, mas envenenaram uma pequena parte do islamismo. Essa tragédia é uma perda histórica significativa. Na época medieval, durante o domínio islâmico na Península Ibérica, os califados (governos islâmicos) eram exemplos de tolerância religiosa (judeus, cristãos e muçulmanos viviam juntos), do  desenvolvimento urbanístico, da ascensão das ciências humanas, biológicas e exatas, de formações sociais complexas e sofisticadas. Constantinopla, Damasco, Córdoba, Sevilha, Granada, Alexandria, eram polos civilizatórios reconhecidos e admirados. Por várias razões históricas, uma pequena parcela do islamismo chegou ao século XXI turvado pelos melanomas pseudo-teológicos que moldam um fundamentalismo arcaico, fora dos tempos e dos fluxos civilizatórios contemporâneos. Essas minorias fundamentalistas que se utilizam de atentados terroristas e estados teocráticos repressores para impor seus princípios, comprometem a riqueza vivencial que o islamismo levou para várias culturas e civilizações.  O teólogo Hans Kung faz uma análise erudita e ecumênica sobre as religiões monoteístas em sua trilogia O Judaísmo, O Cristianismo e O Islamismo. Essas três religiões estão mais entrelaçadas histórica, cultural e teologicamente que o senso comum imagina.       
       

Uma questão complexa e oportuna: criticar o islamismo é crime de ódio e criticar o judaísmo e o cristianismo são expressões artísticas?  Quem são os intolerantes nessas histórias?

O problema fulcral dessas minorias islâmicas é a inexistência de auto-crítica, o amálgama entre religião e estado,  negação em se abrir ao mundo e às suas diferenças e riquezas culturais e a incapacidade de rir de si mesmos. 



Jonathan Swift, com sua humor ácido britânico, lembra que os “homens nunca são tão sérios, pensativos e concentrados quanto quando estão sentados no penico.” (Minois, 2003, p. 425).  Essa é a essência escatológica da crítica representada pelos caganers, da Catalunha, onde os grandes líderes políticos, celebridades do esporte e das artes, religiosos e todo tipo de gente são representados por bonequinhos, defecando tranquilamente com uma expressão facial serena e ao mesmo tempo contemplativa. O humor negro é uma declaração intelectual de amor à humanidade. 

O humor é fundamental, mas séculos de zombarias e gargalhadas não eliminaram a astrologia, as crenças supersticiosas ou os fundamentalismos religiosos. “É porque é preciso um mínimo de espírito para apreciar o espírito, e aqueles que o têm já são convertidos; para os outros, o muro da estupidez constitui uma blindagem impermeável à ironia. Portanto a ironia é para uso interno; ela mantém o bom humor, permite suportar a estupidez e absorver os golpes baixos da existência.” (Minois, p. 435).  


A lista dos problemas causados pelo fundamentalismo islâmico: terrorismo, tirania teocrática, submissão das mulheres,  intolerância e perseguição dos muçulmanos moderados, medo da cultura ocidental.

Enfim, o riso é um remédio potente contra a angústia através da qual rumamos paulatinamente para a morte, a explosão de uma risada seria a explosão vital e não fatal ou condenável. O riso pode aumentar as rachaduras da razão pretensamente absoluta e exclusivamente verdadeira. É isso que os fundamentalistas não o suportam, pois a acidez do riso corrói as estruturas que sustentam os mitos das certezas eternas.  

Nem sempre o humor é gratuito, saudável ou favorece as boas relações humanas. O humor também pode exacerbar preconceitos, dogmas, ódios ou racismos. O sarcasmo não é a mesma coisa que a derrisão. Rir de quem não pode se defender ou das vítimas de injustiças ou desgraças é uma covardia. 
Lembro uma entrevista do saudoso Bussunda, humorista do grupo Casseta e Planeta, onde ele afirmou que tudo tem limites, até o humor. Mas esses limites não podem ser delimitados com a violência discricionária e autoritária dos que pensam que são donos da verdade. Ou, pior, dos que estão convencidos de que uma divindade lhes contou a única e exclusiva verdade sobre a Terra.



 OBS.: Deixo claro que faço uma distinção profunda entre o islamismo (uma religião respeitável enriquecedora, como todas as outras religiões que pregam a paz e a tolerância) e o fundamentalismo islâmico, uma perversão tão nefasta quanto aos outros fundamentalismos religiosos ou políticos.