segunda-feira, 29 de março de 2010

Rodoviária de Campinas: o monstro se foi

Texto e fotos: Luiz Gonzaga Godoi Trigo

Domingo, às 11h00, a cidade de Campinas ficou livre de uma nódoa em sua infraestrutura, de um cancro urbano, de um horror funcional e arquitetônico: a velha rodoviária.

O povo ficou admirado com os helicópteros sobrevoando a área que seria implodida.

Como não me deixaram voar, posicionei-me na rua Espanha, de onde via o prédio da rodoviária velha. A igreja ao lado é a Sagrado Coração de Jesus, no Botafogo, onde passei minha adolescência em uma santa e frugal comunidade de jovens.

Às 11h03, o monstro de alumínio ordinário e de concreto mal acabado foi pelos ares...

... e minutos após a cidade estava livre de um erro.

Aí está a velha rodoviária, uma hora antes do BUM!. Foi inaugurada em 1973 e ficou ativa (sic) até 2008. Era feia, inadequada, pequena, mal localizada e mal administrada. O terreno pertencia à Maternidade de Campinas, que fazia uma gestão extremamente incompetente do negócio. A rodoviária perdia passageiros a cada ano, para os ônibus fretados e outras alternativas. Finalmente a atual administração municipal conseguiu fazer a mudança para uma outra área, pouco melhor, em condições de conforto e operacionalidade bem mais decentes.

Vai demorar uns três meses para tirar o entulho.

E sabe-se lá quanto tempo para implementar o projeto de prédios comerciais, clínicas e escritórios em um plano de valorização da área, bastante degradada nos últimos anos, inclusive em função da própria rodoviária.

A vista lateral do antigo prédio, uma hora antes da ...

... implosão. O entorno possui cortiços, casas abandonadas ou ocupadas, residências antigas e terrenos baldios, todos desvalorizados em função dos problemas sociais gerados pela degradação social e imobiliária local.

Essa área poderia ser utilizada de forma articulada com outros prédios antigos do bairro e inserida em um contexto de desenvolvimento juntamente com o complexo da antiga FEPASA, uma imensa área com treze conjuntos arquitetônicos. Seria interessante um projeto com setores comerciais, com lazer diurno e noturno, entretenimento e, ao mesmo tempo, que garantisse a preservação histórica local. Várias cidades como Curitiba, Buenos Aires, Porto Alegre, São Paulo e Rio já fizeram adaptações urbanas semelhantes. Se houver vontade política e sinergia empresarial, poderá sair algo interessante dos destroços.

Vivi para ver minha cidade livre do trambolho que a assombrou por quase quatro décadas. Campinas não tem lendas folclóricas de fantasmas, demônios e fadas, mas tem as lendas urbanas do trem-bala, do centro de convenções e da segunda pista do aeroporto de Viracopos. São coisas prometidas a décadas. Pelo menos a assombração da velha rodoviária já foi exorcizada, com explosivos. Espero viver para ver as outras lendas se transformarem em realidade. Campinas merece.

4 comentários:

victor r. disse...

Ótima postagem Trigo!
Até que enfim alguém que também concorda que aquilo não vai fazer falta e que como disse no Jornal da EPTV "que a história de uma cidade também é feita da arquitetura dela"
Como se tivesse algum tijolo com arquitetura lá!
Sempre acompanhando o blog!
Um abraço.

Laíse Costa disse...

Adorei a postagem Trigo!!!!!

E que boa notícia hein??!!

kleber disse...

Olá, professor. Ótimo post!
Em Sorocaba, ainda convivemos com uma assombração, a atual, mas antiga rodoviária. Péssima admnistração, péssima infraestrutura em todos os sentidos.

Kleber lzt e morador de Sorocaba

pauloste39 disse...

Interessante, a rodoviária de Sorocaba, também foi inaugurada em 1973, e por coincidência, não é muito bem vista com bons olhos pela comunidade. Dizem que já não serve para as funções atuais!
Quem sabe não teremos uma outra implosão de terminal rodoviário no Interior?

Trigo, sua cobertura do acontecimento campineiro, ficou muito bom! Parabéns!