terça-feira, 30 de outubro de 2012

Balneário Camboriú, SC - desenvolvimento anômalo

Em dezembro de 2011, a revista Exame publicou uma matéria sobre as dez regiões que mais crescem no Brasil. Itajaí, em Santa Catarina, foi um dos destaques. Itajaí, Joinville, Blumenau e a capital, Florianópolis, são cidades desenvolvidas que reúnem indústrias, serviços, infra-estrutura portuária e turismo. Muito dinheiro está sendo gerado e gasto na região.


Parte do imaginário turístico sobre o litoral catarinense repousa nessa imagem.  A foto foi tirada em Balneário Camboriú. É uma praia de quase sete quilômetros de extensão que reune prédios de apartamentos, residências primárias ou secundárias de gente que enriqueceu, de várias maneiras, na região. O imaginário remete à tranquilidade, à placidez da natureza...



... bem diferente do que se vê, se a gente virar 180 graus. A praia foi tomada por uma muralha de concreto que começa a grande altura bem em frente ao mar, ao longo da Av. Atlântica, e avança para o interior.Na faixa litorânea os preços começam com quase um milhão de reais e sobem saudáveis, de acordo com a ambição e o bolso do consumidor.
 
O resultado é a queda da qualidade de vida em geral.  Essa é uma das vistas do 12º andar do Hotel Plaza Camboriú. Vive-se cercado de edifícios caoticamente reunidos numa urbe sem planejamento, sem respeito pelo meio ambiente e sem observar sua capacidade de carga. Essa desgraça, vendida como progresso e desenvolvimento, se repete em muitas cidades do litoral brasileiro.


Com o crescimento econômico nacional e regional, uma segunda onda de construções foi detonada nos últimos anos. Dá para perceber a diferença qualitativa entre a arquitetura mais antiga (direita) e a mais nova, com prédios alvos cobertos por uma película de vidros esverdeados, em linhas curvas e ousadas. Vários desses edifícios pós-tudo têm entre 30 e 46 andares. São os mais altos do país.



Mas isso não é o suficiente para a cidade que sonha em ser um tipo de Dubai tropical. Talvez não saiba que seu arquétipo urbano está em crise e passou por uma bolha imobiliária da qual ainda não se recuperou. Sem contar os vastos danos ambientais que assolam Dubai e são censurados pela bilionária família, proprietária e ditadora dessa fatia dos Emirados. Mas isso não se comenta no Ocidente, pois eles são nossos parceiros comerciais privilegiados.


A mini-Dubai sub-tropical proclama ser a futura sede do mais alto prédio residencial da América Latina, uma torre com mais de 60 andares, a ser construída quase em frente ao mar (poluído durante todo o verão). o projeto será instalado em uma estreita faixa de terra, ao lado de um riozinho imundo que corta a barra norte da cidade. Os apartamentos, com uns 140 metros quadrados, custam quase dois milhões de reais. Vai demorar cinco anos para o projeto ser entregue e as reservas estão sendo feitas.


O prédio está sendo lançado por uma construtora local, a FG Empreendimentos, uma das donas das novas e espetaculares torres da cidade.Veja no site:

http://www.fgempreendimentos.com.br/lancamentos/infinity.cfm



Postei a foto da maquete ontem, no facebook, e muita gente perguntou se o projeto estava dentro do plano diretor da cidade, se respeitava o meio ambiente e se havia tratamento de águas servidas. Ha ha ha ha ha.  Está vendo todos esses prédios? Por que você acha que no verão as águas do Atlantico ficam poluídas? A capacidade de carga da praia estouros há umas duas décadas, e continua bombando. Veja o que o Ministério Público de Santa Catarina tem a dizer:

"Santa Catarina não deve cumprir uma das principais Metas do Milênio, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud): reduzir pela metade o percentual da população não atendida por esgoto sanitário entre 1990 e 2015. Hoje, só 12% da população do Estado tem acesso à rede de esgoto. Em 1990, o índice era de 9,5%."

Fonte: http://saudefloripa33pj.wordpress.com/2011/02/06/vergonha-saneamento-de-sc-em-2015-ainda-sera-pessimo/

O gigante imobiliário, revestido de alvura marmórea e vidros espelhados, tem seus alicerces fundados em cocô.

Durante o verão a cidade encalacra porque o trânsito, com suas ruelas estreitíssimas (poucas avenidas são mais largas) entra em colapso. A avenida Brasil, faixa de desfile de Porshes e Ferraris nos finais de semana, tem apenas duas faixas. Ali, no auge da estação ensolarada, Lamborghini anda à velocidade de carroça. Mas (quase) todo mundo se diverte.

Isso não acontece apenas em Balneário Camboriú. Florianópolis tem sido sistematicamente desrespeitada pelos interesses imobiliários que contornam (sic) a legislação para destruir morros, manguezais, dunas e amontoar edificações em escala absurda. O mesmo pode se dizer de muitas cidades do Brasil. Em São Luís (MA), recentemente o MP obrigou a divulgar os índices de contaminação das praias, o que afugentou os turistas informados. A baixada santista, em São Paulo, já entupida de gente e carros, passa por mais um processo de valorização imobiliária e novas construções. O verão encontrará mais e mais gente vivendo nos paraísos tropicais, agitados, descolados e contaminados.E pagando caro por isso.


Outra foto que postei no FB e fez sucesso foi essa, do melhor hotel da cidade, o Mercure. Desde sábado está fragmentado em seu brand , algo que o gerente bem poderia evitar com manutenção preventiva. Mais um exemplo do planejamento do macaco gordo, tambem conhecido como "quebra-galho". 

Mas chega de problemas. Temos pela frente as festas de final de ano, verãozão e o carnaval. A anomalia passa a ser normal e tacitamente aceita como inexorável. Boa diversão.


sábado, 27 de outubro de 2012

Eleições, paixão e rancor





O país mais uma vez jogou nas urnas as intenções para traçar o futuro de várias cidades. Um jogo democrático, manhoso, às vezes inteligente, certamente melhor que qualquer ditadura.

As campanhas oficiais dos partidos no horário eleitoral gratuito, foram uma mescla de informação, entretenimento, demagogia e trocas de farpas mais ou menos delimitadas. Houve limites. Por outro lado, nas redes sociais, a informalidade, o humor e o rancor estiveram mais presentes. O problema é o rancor.

Recentemente, em um encontro cultural em São Paulo, um veterano historiador comentou que a população brasileira estava, em geral, mais rancorosa. Isso significa também mais violenta, cínica e ressentida. Isso ficou claro nos posicionamentos pretensamente políticos de várias pessoas, dos diversos partidos, ao longo da campanha de 2012.

Teve desde gente que afirmou a inexistência do mensalão (que existiu mesmo), ou a manipulação política do julgamento no STF (que também existiu), até quem afirmou que todos os políticos, militantes e eleitores do PT eram uns bandidos descarados. Em tentativa de represália alguns desenterraram os velhos argumentos contra a privatização do governo Fernando Henrique, como algo ruim para  o país; outros cantaram os louvores do PT e suas políticas inclusivas, como se isso fosse a essência da competência e probidade. Nos extremos de ambas opiniões reinou a insensatez e a corrosão do tecido político, da cidadania e da alteridade.

Uma grande diferença atual é que o mensalão foi julgado e condenado pelo STF. Mas isso abre espaço de exigência para que outros processos, como o chamado “mensalão mineiro” do PSDB, também passe pelo mesmo crivo do judiciário, da mídia e da opinião pública. O ex-presidente Lula não foi incluído no rolo do processo, pelo mesmo motivo que não se falou mais de como Fernando Henrique conseguiu os votos do legislativo para a reeleição presidencial que possibilitou seu segundo governo. Fernando Collor foi absolvido de todas as acusações da época de seu governo. Preserva-se as figuras dos presidentes.
 

Algumas coisas são particularmente nefastas no Brasil: corrupção, impunidade, demagogia e hipocrisia. Necessariamente, para mim, nessa ordem.  A mescla desses ingredientes gera ressentimentos, má-fé, pusilanimidades e os já citados rancores.

Algumas raivas e indignações são muito justas e necessárias. Mas os ressentimentos são o que de pior uma sociedade pode destilar em sua cultura e estilo de vida.  Ao meu ver, uma parte desse ressentimento de parte da classe média e de parte das classes populares deve-se a uma frustração sócio-econômica cultural. Algumas pessoas não admitem os avanços sociais, as políticas de inclusão, o sistema de benefício para alguns segmentos (negros, idosos, pobres em geral, minorias sexuais ou culturais) e sentem que seus antigos – e parcos – privilégios hoje são compartilhados por parte dos antigos excluídos. Estou a falar de automóveis, casas, alimentos mais sofisticados, eletrônicos e outros produtos e serviços de consumo que o crescimento da economia, a melhor divisão de renda e o crédito proporcionam à parte da população, pois a pobreza ainda é uma realidade degradante no país.

Falou-se muitas mentiras ou distorceram fatos nas últimas campanhas, tentando generalizações superficiais e grosseiras. Os reais problemas do país não foram devidamente tratados e analisados: problemas de infra-estrutura, a crise aérea, a necessidade de reformas políticas, fiscais e jurídicas. Navega-se nas margens de um populismo carregado de emoções e rancores. Fica-se à tona das causas dos problemas mas não se vai ao fundo das causas e prováveis soluções.


A educação, a segurança pública, a saúde são vistas como vitrinas que precisam apenas de reformas, ou uma “repaginação”, mas não se analisam radicalmente os produtos ou serviços que estão atrás dessas vitrinas, já tão manchadas pelo descaso e pela poluição.

A mídia brasileira, como a mídia global, em geral, nivela por baixo o nível de análise e nega uma reflexão concreta sobre os problemas da sociedade. Essa promiscuidade midiática alia-se ao descaso para com o ensino publico, obrigatório e gratuito. A sociedade em geral não está nem aí com a educação (ou a fala dela) que é jogada displicentemente às novas gerações. 

Do rancor parte-se para a violência, o cinismo, a indiferença. Sem contar as tentativas patéticas de alguns religiosos em querer impor seus dogmas, preconceitos e depravações à sociedade como um todo. Felizmente as pessoas tem reagido contra essas tentativas espúrias de contaminar ainda mais o tecido democrático com proposições religiosas, em geral hipócritas, estúpidas e nefastas.

Enquanto isso os cenários globais (e locais) vão se alternando rapidamente, turbinados pelas novas tecnologias e por configurações sociais e culturais emergentes. A aldeia global fragmenta-se, revolta-se, alterna-se e muda, como os mares imaginários do planeta Solaris, retratado no livro de ficção científica de Stanislaw Lem, a única citação bibliográfica que faço neste post.

Mas uma eleição, mesmo com baixo nível de discussão é melhor que uma ditadura com alto nível de propaganda oficial. A democracia é melhor que o autoritarismo. A discussão livre vale mais que uma censura, também geralmente obtusa e retrógrada.

Boas eleições, felicidades aos eleitos(as) e que todos cobremos as maravilhosas promessas feitas nas campanhas.

 

sábado, 20 de outubro de 2012

Crise aérea e incompetência continuam – a vez de Viracopos




O problema maior de uma crise é que ela não surge apenas de carências materiais ou de falhas operacionais. A questão de fundo é geralmente o despreparo profissional e a falta de uma mentalidade melhor elaborada, em termos de compreensão real das necessidades e possibilidades de uma determinada situação, para solucionar uma crise.

Uma grande operação exige planejamento tático e estratégico, manutenção constante dos equipamentos, atualização permanente das condições materiais, treinamento, capacidade de atuar sinergicamente com os vários envolvidos em um problema. Além de articulação ágil para se conseguir essa sinergia. Isso ainda não existe no sistema controlador da aviação comercial brasileira, que envolve atores do setor público (Infraero, ANAC etc.), associações profissionais e as empresas aéreas privadas, são concessionárias do governo. Sem contar seus inúmeros fornecedores, públicos e privados: combustível, catering, manutenção, transporte  de bagagens, passageiros e tripulações pelos aeroportos, comunicações, segurança, saúde, alfândega, migração, atividades de apoio nos aeroportos.

No caso da aviação comercial, o setor é altamente regulamentado, pois exige padrões de segurança operacionais bastante elevados. As falhas que não são contornadas ou resolvidas adequadamente podem provocar mortes e destruição. Porém as situações imprevistas acontecem e às vezes, um pequeno incidente – ou acidente sem consequências imediatas – pode se transformar num imenso transtorno com elevados prejuízos.

Foi o que aconteceu semana passada no aeroporto e Viracopos, em Campinas (SP). Um avião cargueiro MD-11 da Centurion, uma empresa norte-americana, teve seu trem de pouso danificado em função do estouro de um pneu, ao aterrisar no aeroporto. A aeronave ficou parada, sem condições de ser rebocada, em uma das extremidades da pista, mas deixava ainda 2.500 metros livres. Tudo começou no início da noite do dia 13 de outubro. Das 19h55 de sábado até às 16h20 da segunda-feira, tempo que o aeroporto ficou fechado, foram cancelados 512 voos e cerca de 27 mil passageiros ficaram no chão ou sem poder chegar ao destino. A Azul, empresa que utiliza o aeroporto como seu hub principal, ficou com 15 aviões “encalhados” no solo. Os irresponsáveis pela gestão do aeroporto calcularam os prejuízos em R$ 3 milhões. A Azul calcula o desastre operacional em R$ 20 milhões.

Porque irresponsáveis?

Os jatos da Azul são fabricados pela Embraer e decolam em pistas de 1.500 metros. A pista de Viracopos, com 3.240 metros, tinha ainda uma área de escape de 700 metros para possibilitar pousos e decolagens com segurança, segundo estudos feitos pela Azul. A pista do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, tem 1.700 metros e a do aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, tem 1.443 metros, uma ponte em uma das extremidades (a ponte Rio-Niterói) e uma pedra de 400 metros de altura (o Pão de Açúcar) bem na frente da outra extremidade da pista e os jatos decolam normalmente. A empresa Azul informou a Infraero e a ANAC sobre isso, pediu autorização para executar os vôos com essa margem de segurança e foram ignorados pelas autoridades. Sequer tiveram respostas para suas solicitações. Tivemos um descaso irresponsável e criminoso por parte das autoridades aeroportuárias.

Esse é o problema das mentalidades. Durante décadas o controle da aviação comercial brasileira ficou nas mãos dos militares da Aeronáutica, que não tem, nunca tiveram, competência para gerir a complexidade de tal sistema. Nenhuma aeronáutica do mundo tem essa competência, tanto é que, no mundo inteiro, os sistemas são administrados especialmente pela iniciativa privada e fiscalizados – aí sim – por órgãos oficiais. No Brasil, a mudança de tal absurdo administrativo é muito recente. Éramos uma das últimas aberrações do planeta, junto com a Somália, Uruguai e Argentina, países que ainda tinham os militares mandando na malha área civil.

Ainda impera a mentalidade autoritária retrógrada e nefasta dos militares da aeronáutica que, no setor militar, sequer possuem caças decentes para operar nos céus brasileiros. Trabalha com equipamentos obsoletos, não se envolvem em guerras há décadas (o que é ótimo), mas também não possuem agilidade para gerenciar crises e atender as emergências de um sistema que hoje, em 2012, tornou-se maior, mais sofisticado e complexo do que nos últimos anos graças ao desenvolvimento do país.

Existe apenas UM equipamento para atender esses casos. É o recovery kit air, pertencente à TAM e fica sediado em sua base de manutenção em São Carlos (SP). Custa cerca de R$ 4 milhões, valor que vários aeroportos podem pagar para ter com reserva em caso de necessidade. Mas não têm. Isso significa que qualquer problema desse tipo, em algum aeroporto deste país continental, depende de UM equipamento privado sediado no interior do estado de São Paulo.

Mas o pior nesse caso, ocorrido em outubro de 2012, foi a falta de coordenação entre a ANAC e Infraero para viabilizar a alternativa solicitada pela Azul com respaldo da Embraer, a fabricante dos jatos. Milhões de reais em prejuízos, 500 voos cancelados, quase 30 mil pessoas prejudicadas porque uns burocratas presunçosos e incompetentes se recusam a avaliar uma alternativa feita por uma empresa privada.

O agravante, que poucas pessoas sabem, é que essas autoridades foram fiscalizar e pressionar a Azul para que ela atendesse os passageiros e os transferisse para outros voos. Como se reacomodar 500 voos, num final de semana com feriado, quando a ocupação é altíssima, fosse fácil. E num aeroporto a 90 km. da capital e de ouros hubs. Aí já se avança de uma incompetência pública para uma perversão administrativa de má-fé para com a companhia aérea e ignorando solenemente os passageiros. Não resolvem o problema, ignoram a solução proposta pela Azul e pressionam a companhia em uma data difícil, por ser final de feriado prolongado, para resolver algo que deveria ser anteriormente planejado ou resolvido emergencialmente,

É esse preconceito estúpido que ainda marca, graças aos anos de autoritarismo militar e as falhas dos sucessivos governos civis, a gestão da malha aérea civil brasileira.

Esse é o cerne de nossa crise aérea e de outros problemas nacionais. Mentalidade retrógrada, ao lado da falta de educação e cidadania.

Luiz Gonzaga Godoi Trigo

Alguns links com matérias a respeito:





domingo, 14 de outubro de 2012

Mais um dia do professor(a)






De vez em quando, especialmente no dia dos professores, aparecem palavras e pensamentos bonitinhos sobre educação, escolas e os educadores. A mídia, as redes sociais, os políticos, as escolas, todos gostam de defender e apoiar, de alguma forma, a educação e os educadores(as). Mas essa aparência corresponde à realidade nacional?

Claro que educação é importante. É fundamental para formar melhores cidadãos, profissionais, empreendedores e todo tipo de pessoas, além de viabilizar uma sociedade também mais justa e desenvolvida, pelo menos em teoria. Todo tipo de relatório, político, corporativo ou social, enaltece as virtudes e vantagens da Paidéia, do processo pedagógico para aprimorar a cultura e a civilização. Todo esse processo didático-pedagógico depende dos profissionais da área. Aí entram o(a)s homenageados(as), que são as estrelas locais do 15 de outubro, o dia do professor(a), no Brasil.

Para percebermos a importância disso, pensemos sobre os educadores. Pense nos seus professores. Alguns surgem rapidamente na memória, são os (as) que marcaram sua infância e sua adolescência, até mesmo a juventude. Tenho na minha memória, muito claramente, todas (os) que influenciaram minha educação, no bom e no mau sentido. Um desses mestres, o Régis de Moraes, foi meu professor de filosofia na PUC-Campinas e depois meu orientador de doutorado na Unicamp, além de responsável pelo primeiro texto que publiquei. Ele organizou um livro chamado Sala de aula – que espaço é esse?, lançado pela editora Papirus, em 1986. Está na 22ª edição. Eu era estudante de filosofia e escrevi realmente o que pensava em um capítulo do livro onde todos os outros autores(as) já eram experientes educadores. Hoje, como professor, assinaria o texto com a mesma convicção.

Acho que vale reproduzir alguns dos últimos parágrafos.

“A escola pode construir relacionamentos humanos profundos, integrais e duradouros. Relacionamentos que envolvam a pessoa humana em toda a sua potencialidade, em sua riqueza de experiências, que propiciem o enriquecimento mútuo e o crescimento dentro de suas paredes, entre professores e alunos ou entre os colegas. 

Porém às vezes a escola trouxe relacionamentos lastimáveis, destrutivos e plenos de amarguras, personalidades truncadas e doentias, laços tão repletos de ódio e rancor que comprometeram futuros relacionamentos.

Na letra da música de Pink Floyd, temos exatamente o que não se quer em uma escola. Não se quer educação com controle mental, que significa livros escolares medíocres e censurados, aulas expositivas com restrições a apartes dos alunos e cerceamento de comportamento. Não se quer sarcasmos por parte dos educadores que vêem o aluno como um inferior, destinado exclusivamente a receber as informações, cimos e estivesse fazendo um favor à plebe ignara. Marilyn Fergunson, em ‘The Aquarian Copnspiracy’ escreve sobre novos conceitos de educação, onde a ênfase no contexto e no processo devem substituir os velhos esquemas das escolas. Uma educação flexível, não autoritária, participativa, integrada em grupos de idades diferentes para maior troca de experiências. A educação como processo criativo e integral, não apenas livresco ou explanado em salas, mas vivido pela vida afora, além dos muros das escolas, não desprezando, contudo, seus bancos e professores.”  (Trigo, 1986, p. 80).

A realidade educacional brasileira mudou ao longo desses anos, melhorou um pouco, mas de forma bastante desigual pelo país. Porém, no geral, os índices de aproveitamento educacional ainda são muito baixos e o Brasil continua nos últimos lugares nos rankings internacionais (como o PISA, por exemplo). Um dos problemas é que, na verdade, a sociedade civil não dá a devida importância à cultura e à educação. Basta ver os salários baixíssimos dos professores e como as pessoas (pais, familiares, autoridades, políticos) não os respeitam. Não há uma movimentação eficiente e responsável da sociedade civil para garantir uma melhoria consistente do sistema educacional. A valorização da cultura existe em alguns lugares e ocasiões, mas o grande fluxo cultural acontece na superficialidade dos meios de comunicação privados e na cova rasa do entretenimento fácil e simplista. A cultura é frágil e a educação tornou-se um simulacro cujos rótulos valem mais do que seus parcos conteúdos. Fala-se um pouco, faz-se quase nada. As boas escolas são ilhas excepcionais em um oceano de mediocridade e carências de todo tipo.

Os resultados finais são a baixa produtividade dos nossos profissionais; a falta de mão-de-obra altamente qualificada em vários setores, especialmente quando envolve processos mais complexos ou alta tecnologia; uma alienação social no que se refere a deveres e responsabilidades da cidadania; uma despolitização profunda; uma série de relações que oscilam entre o cinismo, o rancor ou a indiferença, tudo o que não deve existir em uma sociedade ou, no que seria ideal, em uma comunidade.

Para mudar essa realidade a educação é importante e os professores, especialmente os de ensino fundamental e médio, são indispensáveis. Qualquer país só se desenvolve plenamente quando estrutura seu  ensino público básico e  gratuito com elevada qualidade.   

Esse é o nosso desafio, dos professores e da sociedade civil em geral. Isso, se queremos um país melhor; se pensamos, responsavelmente, nas novas gerações; se almejamos uma velhice com melhor qualidade de vida e respeito por parte dessa sociedade.

Então, um ótimo dia dos professores para meus colegas, alunos e para todos que se importam com uma das vertentes essenciais da humanidade que é a educação.

Enfim, adoro minha profissão e vocação. Considero-me  razoavelmente realizado na minha carreira acadêmica. Tenho orgulho das minhas escolhas e dos meus trabalhos. Acredito que fazemos a diferença e que podemos contribuir de alguma forma para sociedade. O conhecimento será, cada vez mais, a principal fonte das benesses, riquezas e poderes das sociedades atuais.


Luiz Gonzaga Godoi Trigo


segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Pensando minha nova dieta







Estou tendo uma experiência inédita em minha vida que é um processo programado de perda de peso. Não é bem uma dieta, eu mudei meus hábitos alimentares desde 6 de maio de 2012. Até hoje, final de setembro eliminei10 quilos, mais de dois quilos por mês. Agora estou com 80,550 Kg. Sempre me peso na mesma balança eletrônica em uma farmácia (custa R$ 0,50).

Não há segredos ou grandes estudos de cardápios, receitas ou controle de calorias, mas sim vontade, certo conhecimento (sobre dietas) e disciplina. Vamos por partes.

Já há alguns anos estava acima do peso. Viagens, ansiedade, refeições copiosas, um pouco de gula e relaxo me deixaram com 90,5 quilos. Como tenho 1,70 m. de altura, estava bem acima do peso desejado. Os exames periódicos não davam alterações significativas em colesterol e triglicérides porque não como gordura e caminhava pouco, mas o suficiente para enganar o corpo. Isso mudou em abril deste ano. Ao fazer meus exames periódicos de check up, a curva glicêmica mostrou uma discreta, mas significativa, alteração.

Não confio em qualquer médico, pois já vi barbaridades suficientes para desconfiar de discursos alarmantes e métodos estranhos. Pedi que meu primo, um clínico geral veterano e que me conhece desde criança, que analisasse os exames. Sabendo de minha teimosia e estilo de vida ele me ligou e disse secamente: “Ou você perde peso e faz algum exercício ou fica diabético. A escolha é sua”. Isso me convenceu. Falei com ele e seu bom senso me orientou como proceder. Sem radicalismos ou neuroses, mas com práticas simples e eficazes. Também li algo sobre dietas, inclusive um livro de um neurocientista norte-americano onde ele explica porque sexo, drogas e comida nos dão tanto prazer e como ele é decodificado na bioquímica cerebral (A origem do prazer. David Linden. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011).

Na prática cortei totalmente açúcar branco me contentando com a frutose (açúcar natural de frutas) e o mínimo de adoçantes em produtos como iogurte, musli e geléias light. Muita coisa que é oferecida para diabéticos serve perfeitamente para quem quer perder peso e ter uma alimentação mais saudável, um exemplo são os pães, bolachas e massas feitas com farinha integral. São muito mais saudáveis que os feitos com farinha refinada (branca), que têm um impacto muito letal na saúde. O mesmo vale para arroz integral, que fica gostoso com feijão ou lentilha e é mais saudável que o branco. Tudo isso vale para pessoas que não possuem incompatibilidade com algum desses ingredientes, por isso acompanhamento médico ou nutricional é fundamental.

Optei por carnes magras como peru light, frango e peixe, mas uma ou duas vezes por semana como carnes vermelhas, também magras. Farto-me de legumes cozidos, frutas leves e saladas. Faço um bom café da manhã, um almoço leve e jantar frugal. Nos intervalos, quando a fome aperta, como uma barra de cereais light (ou normal, se for a única opção), sucos sem açúcar ou frutas. Adoro os sucos e geléias (sem açúcar) da Queensberry e os iogurtes light da ati latte. Queijos e frios também são boas opções. Incrementei minhas omeletes e a granola do café da manhã, aliás cafés e chás são tomados sempre sem açúcar ou adoçante, assim como caipirinhas de vodka. Descem puras. Voltando à granola, uso um tipo de musli light, aveia em flocos, umas três nozes esfareladas e iogurte, igualmente light.

 Li na Internet (e confirmei com um especialista) uma lista de dez alimentos que ajudam a emagrecer:

Amêndoas
Ovo
Soja
Maçã
Bluberry (ou mirtilo)
Espinafre
Iogurte light
Sopa de legumes (natural, sopa em pacote ou lata tem muito sódio)
Salmão
Quinua

Obs. Claro que não vai comer só isso, esses são alimentos ótimos para regimes mas devem ser complementados com outros ingredientes.

O restante é bom senso e um pouco de exercício, no meu caso, caminhadas de pelo menos 40 minutos. A conta é simples: há que comer menos calorias do que se gasta, portanto eventualmente como chocolate, pizza ou até feijoada, mas em pouca quantidade e menos vezes por mês. Se o chocolate tem mais cacau e menos açúcar melhor; se as massas são com farinha integral, é lucro. Doces e sorvetes quase nunca, mas também não sinto falta. Cortei 97% a cerveja e troquei por vinho ou sakê, conhaque ou vodka, mas também maneirando.

 Alguns detalhes importantes:

  1. Homem emagrece mais rápido que mulher, portanto as meninas devem ter mais paciência e perseverança, sorry;
  2. Toda mudança alimentar deve ser acompanhada por um profissional;
  3. Se a pessoa tiver algum tipo de doença crônica ou eventual isso deve ser considerado no planejamento dietético e avaliado pelo profissional que acompanha o caso. Nesse ponto incluem-se os distúrbios hormonais (e outros distúrbios psicossomáticos) que provocam aumento ou diminuição de peso;
  4. Ler a respeito ajuda a entender a lógica e os métodos nutricionais e dietéticos, mas as fontes devem ser qualificadas, pois há muitos modismos e besteiras a respeito de dietas;
  5. Não adianta ficar sem comer, o organismo reage provocando vários distúrbios ou a carência alimentar pode causar doenças graves. O ideal é comer menos, escolher alimentos saudáveis e comer mais vezes por dia do que apenas as três refeições clássicas. Um bom desjejum é fundamental;
  6. Alimentar-se bem tem um custo, mas nada exorbitante se comparado com certas “tranqueiras” vendidas em todo lugar. Economizar em comida engorda, note como há muita gente que é pobre e gorda, pois se alimentam de forma errada (carboidratos, açucares, gorduras, enlatados com muito sódio) e em excesso, tudo acompanhado por refrigerantes, sucos adoçados, cervejas e sobremesas obscenas. Claro que há gente de outras classes sociais que também estão acima do peso, pelos mesmos motivos ;
  7. A partir de certa idade não adianta fazer uma “dieta”, é preciso mudar permanentemente os hábitos alimentares se quiser viver – e  morrer – saudável.

Atenção: Finalmente, tudo o que foi escrito acima é uma experiência pessoal, não sou profissional da saúde e nem especialista em nutrição. Isso significa que não  estou autorizado a ministrar conselhos ou diretrizes dietéticas, apenas a comentar meu caso de maneira informal e literária Cada indivíduo possui suas características e seu organismo reage de forma específica aos diversos tratamentos e dietas, portanto é fundamental consultar um profissional da área de saúde para fazer os exames necessários ao planejamento e acompanhamento de seu regime.





quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Coisas e cores da Inglaterra




Fiquei a última semana (10 a 17 de setembro de 2012) na Inglaterra. Foi uma viagem realizada pela USP, para participar de reuniões na Universidade de Surrey, envolvendo o consórcio UGPN (University Global Partinership Network), com a North Caroline State University, Surrey e USP.




Com os voos para a Europa lotados, minha melhor opção foi Air France, com conexão em Paris. Aí está o Airbus 380 (da Emirates), o maior jato comercial do mundo, estacionado em Charles de Gaulle.


O aerporto parisiense tem uns terminais em forma de tubos bem compridos, belos e confortáveis. Essa é a extremidade de um deles, com espaço para relaxar e ver a paisagem.



E esse é apenas um dos cinco terminais existentes. Um trem interno conecta as diversas áreas. Os tubos são bem confortáveis e estilosos.


O chefe da delegação da USP, com 13 professores foi o Vice-Reitor de Relações Internacionais (esquerda), Prof. Adnei Andrade, visto ao lado do Prof. Adalberto Fischmann, da FEA em um momento de imersão conceitual. Nessa reunião estiveram presentes as áreas de medicina, engenharia, veterinária, administração e turismo.


Foi uma oportunidade para aprofundar os contatos e projetos  entre as três universidades, no contexto da internacionalização necessária para trocas de experiências e conhecimento. O site do consórcio é http://www.ugpn.org/ .


No ranking da QS Top Universities de 2102, a USP avançou várias posições, estando em 139ª lugar global e em primeiro lugar na América Latina. No primeiro ranking nacional, realizado recentemente pela Folha de São Paulo, a USP ficou em primeiro lugar no Brasil. A meta é enttar para as cem melhores universidades do mundo nos próximos anos.










http://www.topuniversities.com/university-rankings/world-university-rankings/2012



A Universidade de Surrey não é muito grande mas possui parques e jardins bem cuidados, como é comum no Reino Unido. Ano passado estive em um congresso internacional em Surrey, com o Prof. Alexandre Panosso (EACH-USP) , onde apresentamos trabalhos. No verão tem gente estudando por todos os cantos.



Depois dos dias de reuniões e atividades acadêmicas passei o final de semana em Londres para curtir as novidades e rever algumas preciosidades. Essa livraria, por exemplo, é especializada em roteiros, guias, mapas, globos e artigos para viagens. Para ver seu acervo e saber o endereço acesse  http://www.stanfords.co.uk/




o edifício mais alto de Londres foi inaugurado em 5 de julho desse ano. The Shard tem 309,6 metros de altura e está ao lado da London Bridge. Foi projetado pelo arquiteto italiano Renzo Piano e ainda não foi aberto à visitação, mas já incrementou o skyline da cidade.




Um dos templos do consumo de entretenimento é a Forbidden Planet ( http://forbiddenplanet.com/ ), uma megastore com quadrinhos, games, livros, mangás, DVDs, objetos colecionáveis e decorativos, tudo referente ao universo do entretenimento, infantil e adulto.


As vitrinas são repletas de peças saídas dos mundos oníricos do terror, da fantasia e da ficção científica.


Algumas peças exigem um cartão de crédito reforçado. Esse ovo do Alien, por exemplo, custa a bagatela de 580 libras. Algumas réplicas ou maquetes chegam a duas mil libras.

 Uma mostra do bom gosto e sobriedade inglesas é a fonte-memorial em homenagem à Princesa Diane, inaugurada no Hyde Park, em 2004. É constituída apenas por essa canaleta com água corrente, um círculo ovalado que acompanha a inclinação do terreno, cercada por um gramado com as árvores do parque ao fundo.


Surpresa na livraria Fpyles, na Charing Cross Road, a rua que reúne várias livriarias e sebos, desde os descolados e modernosos aos sóbrios e arcaicos. De repente, no meio das estantes, uma homenagem ao Brasil e a data da independência. E com livros em português, do Brasil. Está certo que no meio tinha Os Lusíadas, do lusitano Luís de Camões, mas para nós é uma honra, afinal a obra-prima é uma das bases de nossa língua e cultura. 
http://www.foyles.co.uk/



A estação de Paddington é uma dessas encruzilhadas ferroviárias globais que fazem a festa de escritores como Paul Theroux. Figuras de todo tipo, tamanho, raças e algumas espécies formam o cenário vivo fantástico do lugar.

Tem mais fotos e comentários, mas fica para a próxima postagem.


sábado, 8 de setembro de 2012

V CLAIT - os últimos dias





O CLAIT terminou parcialmente na quarta-feira, mas na quinta-feira ainda teve uma reunião com a Pauline Sheldon e sua equipe de pesquisas.


Cá estou com os professores Neto, Gabriela, Patrícia e Sandra. As três meninas foram minhas alunas na PUC-Campinas. Grande orgulho das novas gerações.



Erik Ekstrom, Daniel Laino e Lucas Araújo arrasaram como músicos profissionais durante o espaço de convivência no Clait. Sabe aquelas músicas brasileiras, MPB, bem tocadas e cantadas? Erik é nosso aluno do oitavo semestre de Lazer e Turismo, estuda música e trouxe seus dois amigos do Conservatório para animar a festa.




Parte da turma de professores e discentes da EACH-USP que trabalhou no V CLAIT. Estou cercado de competências, bom humor, energia e uma certa atmosfera lúdico-onírica.



Miguel Moital (ao centro), um português que está na Universidade de Bournemiuth (UK) e adora o Brasil, cercado pelos jovens doutores brasileiros.







Profa. Dra. Mirian Rejovski foi homenageada hoje à noite pela Prfa. Dra. Regina Schluter. Mirian é um patrimônio acadêmico: digna, honrada, generosa, leal, um "hub" de qualidades e atributos edificantes.




A conferência de encerramento do V CLAIT, na EACH-USP, foi com o famoso Douglas Pearce, que participou intensamente do evento.O geógrafo especializado em Turismo é da Nova Zelândia, um dos mais conhecidos autores e pesquisadores e ficou muito a vontade, tirando fotos, conversando com as pessoas e curtindo o evento.



Débora Braga e Reinaldo Teles, do curso de turismo da ECA-USP, ao lado de Karina Solha, da EACH-USP e coordenadora do evento.



A turma do mestrado em Turismo da Univali-SC esteve presente, fazendo apresentações e convivendo os colegas pesquisadores.

O próximo CLAIT será na Argentina.

Foi uma semana intensa e o agito não acabou. No domingo embarco para Londres, na delegação da Universidade de São Paulo que visitará a Universidade de Surrey. Mandarei notícias da terra da Rainha.