sábado, 27 de outubro de 2012

Eleições, paixão e rancor





O país mais uma vez jogou nas urnas as intenções para traçar o futuro de várias cidades. Um jogo democrático, manhoso, às vezes inteligente, certamente melhor que qualquer ditadura.

As campanhas oficiais dos partidos no horário eleitoral gratuito, foram uma mescla de informação, entretenimento, demagogia e trocas de farpas mais ou menos delimitadas. Houve limites. Por outro lado, nas redes sociais, a informalidade, o humor e o rancor estiveram mais presentes. O problema é o rancor.

Recentemente, em um encontro cultural em São Paulo, um veterano historiador comentou que a população brasileira estava, em geral, mais rancorosa. Isso significa também mais violenta, cínica e ressentida. Isso ficou claro nos posicionamentos pretensamente políticos de várias pessoas, dos diversos partidos, ao longo da campanha de 2012.

Teve desde gente que afirmou a inexistência do mensalão (que existiu mesmo), ou a manipulação política do julgamento no STF (que também existiu), até quem afirmou que todos os políticos, militantes e eleitores do PT eram uns bandidos descarados. Em tentativa de represália alguns desenterraram os velhos argumentos contra a privatização do governo Fernando Henrique, como algo ruim para  o país; outros cantaram os louvores do PT e suas políticas inclusivas, como se isso fosse a essência da competência e probidade. Nos extremos de ambas opiniões reinou a insensatez e a corrosão do tecido político, da cidadania e da alteridade.

Uma grande diferença atual é que o mensalão foi julgado e condenado pelo STF. Mas isso abre espaço de exigência para que outros processos, como o chamado “mensalão mineiro” do PSDB, também passe pelo mesmo crivo do judiciário, da mídia e da opinião pública. O ex-presidente Lula não foi incluído no rolo do processo, pelo mesmo motivo que não se falou mais de como Fernando Henrique conseguiu os votos do legislativo para a reeleição presidencial que possibilitou seu segundo governo. Fernando Collor foi absolvido de todas as acusações da época de seu governo. Preserva-se as figuras dos presidentes.
 

Algumas coisas são particularmente nefastas no Brasil: corrupção, impunidade, demagogia e hipocrisia. Necessariamente, para mim, nessa ordem.  A mescla desses ingredientes gera ressentimentos, má-fé, pusilanimidades e os já citados rancores.

Algumas raivas e indignações são muito justas e necessárias. Mas os ressentimentos são o que de pior uma sociedade pode destilar em sua cultura e estilo de vida.  Ao meu ver, uma parte desse ressentimento de parte da classe média e de parte das classes populares deve-se a uma frustração sócio-econômica cultural. Algumas pessoas não admitem os avanços sociais, as políticas de inclusão, o sistema de benefício para alguns segmentos (negros, idosos, pobres em geral, minorias sexuais ou culturais) e sentem que seus antigos – e parcos – privilégios hoje são compartilhados por parte dos antigos excluídos. Estou a falar de automóveis, casas, alimentos mais sofisticados, eletrônicos e outros produtos e serviços de consumo que o crescimento da economia, a melhor divisão de renda e o crédito proporcionam à parte da população, pois a pobreza ainda é uma realidade degradante no país.

Falou-se muitas mentiras ou distorceram fatos nas últimas campanhas, tentando generalizações superficiais e grosseiras. Os reais problemas do país não foram devidamente tratados e analisados: problemas de infra-estrutura, a crise aérea, a necessidade de reformas políticas, fiscais e jurídicas. Navega-se nas margens de um populismo carregado de emoções e rancores. Fica-se à tona das causas dos problemas mas não se vai ao fundo das causas e prováveis soluções.


A educação, a segurança pública, a saúde são vistas como vitrinas que precisam apenas de reformas, ou uma “repaginação”, mas não se analisam radicalmente os produtos ou serviços que estão atrás dessas vitrinas, já tão manchadas pelo descaso e pela poluição.

A mídia brasileira, como a mídia global, em geral, nivela por baixo o nível de análise e nega uma reflexão concreta sobre os problemas da sociedade. Essa promiscuidade midiática alia-se ao descaso para com o ensino publico, obrigatório e gratuito. A sociedade em geral não está nem aí com a educação (ou a fala dela) que é jogada displicentemente às novas gerações. 

Do rancor parte-se para a violência, o cinismo, a indiferença. Sem contar as tentativas patéticas de alguns religiosos em querer impor seus dogmas, preconceitos e depravações à sociedade como um todo. Felizmente as pessoas tem reagido contra essas tentativas espúrias de contaminar ainda mais o tecido democrático com proposições religiosas, em geral hipócritas, estúpidas e nefastas.

Enquanto isso os cenários globais (e locais) vão se alternando rapidamente, turbinados pelas novas tecnologias e por configurações sociais e culturais emergentes. A aldeia global fragmenta-se, revolta-se, alterna-se e muda, como os mares imaginários do planeta Solaris, retratado no livro de ficção científica de Stanislaw Lem, a única citação bibliográfica que faço neste post.

Mas uma eleição, mesmo com baixo nível de discussão é melhor que uma ditadura com alto nível de propaganda oficial. A democracia é melhor que o autoritarismo. A discussão livre vale mais que uma censura, também geralmente obtusa e retrógrada.

Boas eleições, felicidades aos eleitos(as) e que todos cobremos as maravilhosas promessas feitas nas campanhas.

 

2 comentários:

Siwla Silva disse...

Transmimento de pensação. :) Obrigada e bj
Siwla

Maristela Machado disse...

Para terminar a nossa boa conversa,dearest compadre, te recomendo um texto do sempre clarividente Contardo Calligaris. Nesses últimos dias de perplexidade diante acachapante mediocridade, tinha que ser um psiquiatra pra expressar tão bem o que ando sentindo. Beijos!
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/1174594-silencio-e-barulho-das-emocoes.shtml