terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Copa do Mundo: emocionante, bagunçada e sensual




Com a Copa do Mundo em nossas vitrines reais e virtuais, o Brasil aprenderá duramente o que significa ser um ícone global em pleno século 21. Estaremos à mercê, sob os olhares críticos e câmeras indiscretas, de jornalistas, turistas, políticos, empresários, jogadores, profissionais estilosos e viajantes que assistirão, in loco,  as maravilhas e vergonhas deste imenso país tropical recentemente brindado com o título de “país fragilizado”, ao lado da Índia, África do Sul, Turquia e Indonésia. Um sinal de que o velho BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) está, em parte, se esfarelando economicamente. Claro que a oposição brasileira entende que o país está à beira de um colapso e o governo, por sua vez, garante a excelente saúde financeira brasileira, ambos com base em diferentes interpretações dos números, cenários e projeções. 



Porém, a cerca de 100 dias do início do megaevento, não teremos que esperar muito pelas “horas da verdade” e pelas contabilidades econômica, logística, esportiva e midiática a partir do momento solene da declaração “que os jogos comecem”. Então as desculpas, os mal-entendidos, as mentiras, as opiniões contra e a favor da Copa serão confrontadas com o mundo hiper-real da voracidade espetacular. Esse fenômeno analisará critica e implacavelmente este jovem país belo e violento, sensual e encantador, hospitaleiro e cínico, arrogante e tão carente de atenções internacionais para com seus caprichos, sonhos e desejos. 

Já desde fevereiro, antes do Carnaval, nós e o mundo nos deparamos com o abismo de incertezas gerado pelos atrasos e aumento dos preços das obras dos estádios, pelos protestos contra a Copa, pelo fracasso de vários dos alegados legados da Copa como mobilidade urbana, urbanismo, infraestrutura em geral, infra esportiva, visibilidade internacional, desenvolvimento econômico, profissionalização do esporte, empreendedorismo e geração de empregos.   

Como a opinião pública reagirá aos elogios, críticas, denúncias, ironias e piadas que serão feitos a nós e às nossas coisas brasileiras, tão caras ao nosso amor-próprio e orgulho latino? 

Dois recentes exemplos mostram a diferença de receptividade que, por sua vez, ilustra os limites que toleramos para nossas suscetibilidades e frescuras. 

O primeiro exemplo é como uma reportagem deturpada da revista francesa France Football, (de 28 de janeiro de 2014), foi amplamente compartilhada e comentada no Facebook. O post foi compartilhado mais de 200 mil vezes com informações erradas sobre o conteúdo escrito pelos jornalistas Éric Champel, Éric Frosio e François Verdenet. Essas incorreções são críticas grosseiras sobre nossa política, segurança, economia, (des) organização além dos problemas logísticos e infraestruturais do país. O texto é falso, foi adulterado e exagerado, mas causou razoável impressão positiva, especialmente entre os críticos da Copa e opositores do governo petista. Então os franceses podem nos achincalhar que a gente tolera? Parece que sim, mas o texto é uma empulhação. A revista francesa não foi tão ácida nas críticas e basta ler com atenção para perceber que é uma falsificação com estilo rude e argumentos frágeis ou mal articulados. Mesmo assim, foi um sucesso em parte das redes sociais.


O texto falso que bombou nas redes sociais

Mas bastou a Adidas, patrocinadora da Copa do Mundo, colocar à venda nos Estados Unidos, duas camisetas com dúbias referências sobre nossa, digamos, pródiga e liberal  sexualidade, para surgir indignação nas redes sociais e no governo brasileiro. Após reclamações do Ministério do Turismo e da Secretaria de Políticas para as Mulheres, no dia 25 de fevereiro de 2014, a Adidas informou que suspendeu a venda da linha de camisetas que associava o Brasil ao sexo. Uma delas tinha o desenho de uma mulher de biquíni com a frase lookin’ to score, ou “em busca de pontos”, que são os gols, pois há uma bola de futebol no desenho. Porém os maliciosos entendem que a mensagem faz referência ao sexo, pois pode também significar “procurando faturar, se dar bem”. A outra modelo tem um coração que lembra uma bunda de biquíni, formando a frase I love Brazil. Isso não pode, porque a nossa hipocrisia moralista se ressente da realidade cruel que vivemos, de que somos um dos destinos de turismo sexual do planeta. Esse segundo exemplo rompeu a tênue cortina de tolerância que temos com as críticas ao nosso jeito de ser. 


As camisetas da discórdia...

Porém, no mundo real, o Brasil, a Tailândia e alguns países do sudeste asiático, certos países do leste europeu, são conhecidos pela sensualidade de seus habitantes (masculinos e femininos), pela liberalidade da prostituição local e dos serviços de entretenimento articulados a jogos, álcool, sexo e turismo. Em meados do século XX, a bacia do Mediterrâneo (Itália, Grécia, Argélia, Tunísia...) era conhecida como um exuberante destino sexual para heteros e gays. Cuba (antes da revolução, em 1959) e o Haiti (antes da epidemia de AIDS, na década de 1980) eram destinos sexuais para norte-americanos que, posteriormente, rumaram para o outro lado da fronteira mexicana. O Brasil não é um destino sexual exclusivo, mas possui uma imensa rede de prazer que envolve homens, mulheres e travestis, conforme vários acadêmicos e parte da mídia já pesquisaram e relataram. O país é liberal, possui bolsões de pobreza e goza, desde o século XVI, da simbologia de que “não existe pecado no lado de baixo do Equador”. 

Mas, para  mercado interno, nós brasileiros, como realmente encaramos a sexualidade comercial, ou seja, a prostituição? E como encaramos a sensualidade tão elogiada de nosso povo? Com muita liberalidade e, muitas vezes, com verdadeira vulgaridade. Publicidade de cervejas, imagens do Carnaval em todo o país, várias festas populares, músicas (o funk, por exemplo), os programas de reality show, as novelas, os filmes (lembra a pornochanchada?), os históricos espetáculos teatrais de revista, a antiga publicidade oficial da Embratur (décadas de 1970 e 1980), tudo isso exala estrogênio e testosterona. Exportamos garotas e garotos de programas e travestis para países como Portugal, Espanha, Suíça, Itália, Alemanha. Os viajantes que perambulam pelo país, brasileiros ou estrangeiros, sempre encontram os endereços privados e os lugares públicos (praias, praças, parques, festas de rua) onde o sexo é praticado em todas as suas formas e estilos. Há inclusive a nefasta pedofilia, alvo de combate efetivo do governo federal e de várias empresas de hotelaria ou turismo, mas com sucesso apenas relativo, pois os abusos e interesses são tão grandes quanto nossa extensão territorial.

Então a Adidas (e outros grupos ou empresas) tem razão de sobra para “brincar” com nossa orgulhosa e informal sensualidade. Somos motivo de piada nesse quesito em vários lugares do mundo, mas nossos brios não permitem uma análise objetiva e específica sobre o que acontece nas camas e redes de nossas cidades e recantos paradisíacos. Qualquer estrangeiro que frequente certos camarotes ou bailes privados no carnaval, algumas festas públicas particularmente picantes (além dos carnavais há outras festas locais que acabam em orgias, mas não as citarei para não inflamar pruridos paroquiais), festinhas particulares de empresas, governos ou outras instituições (sic), sem contar todo tipo de lupanar, dos mais simples aos mais exclusivos, terá a plena visão de que a esbórnia tupiniquim é livre, leve e solta. Mas não pode falar ou mostrar, pois excede os limites de tolerância para com nossos próprios sonhos úmidos e desejos incandescentes. Por isso a Adidas foi tão rapidamente atacada pelo governo e por alguns internautas preocupados com nossa boa “imagem” perante o mundo. A empresa capitulou porque tem interesses comerciais imensos e a última coisa que quer é polêmica com o Brasil, nervoso e estressado, às vésperas de uma Copa problemática e com o povo nas ruas.   


Imagem oficial do Ministério dos Esportes sobre o correto amor ao Brasil

Em cerca de 100 dias, estaremos nus e abertos (eu escreveria arreganhados) à mídia global e à voracidade que engole espetáculos, escândalos e reputações. Se a Copa for razoavelmente bem realizada, menos mal para nossa “bunda exposta na janela”. Se os problemas, protestos, falhas e imprevistos forem mais vastos e profundos, os vexames serão on line e reverberados por implacáveis críticos e analistas dos mais diversos meios de comunicação, dos blogs pessoais às mega empresas. Se a opinião pública mundial foi leniente com a África do Sul (apesar de várias reclamações com a organização da Copa, em 2010), talvez o mesmo não aconteça com o Brasil. Nos últimos anos somos os novos e pretenciosos jogadores globais nas arenas econômicas, culturais e políticas mais importantes do planeta. Quisemos a todo custo sediar o show e agora, às suas vésperas, vemos que perdemos tempo e dinheiro ao não deixar tudo pronto com antecedência e ainda por cima enfrentamos uma oposição interna ao bom andamento dos jogos, uma torcida “contra”, algo até recentemente difícil de conceber nesta “pátria de chuteiras”. É bom que tenhamos serenidade e maturidade para aceitar as críticas que forem cabíveis, pois queremos posar de excelentes aprendizes de feiticeiros. Estaremos no centro dos palcos, estádios e festas, prontos para sermos dissecados pelas redes e teias. Fizemos as nossas apostas e agora temos os nossos jogos vorazes, especialmente fora dos campos. Os dados foram lançados, torçamos para que nossos palpites estejam dentro das janelas de oportunidades imaginadas e projetadas. E enfrentemos a realidade com maturidade e discernimento, qualidades não tão fáceis de serem vivenciadas. Mas aprenderemos muito com os suntuosos eventos. 

Vejo Morpheus, em pleno Itaquerão, na abertura da Copa, olhando as câmeras através de suas lentes negras e vociferando suavemente às plateias terrestres: welcome to the desert of the real...   

Luiz Gonzaga Godoi Trigo, 2014

3 comentários:

José Roberto Yasoshima disse...

Trigo, excelente a sua análise. Vejo que a licença prêmio está despertando todo o seu lado criativo e espírito crítico, sempre com muito bom senso! Parabéns!

Isabela França disse...

Texto profundamente embasado, e descritor da realidade do Brasil, de maneira crítica mas ao mesmo tempo com uma criatividade de dar inveja! Adorei!! Palmas pra você Prof. Luiz Trigo, vulgo tio querido Luizinho!! Vou compartilhar!! =D...bjosss

Alexandre Panosso Netto disse...

Trigo, muito boa sua análise. De fato, é crítica, é direta e com certo ácido, como de costume! Parabéns.