terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Nossos tempos (poesia livre)


"e tal assim sucedeu em dias que já não vemos

porque o tempo é isso, é isto:

àquilo que já não se vê não podes chamar presente

- é memória ou futuro, invisibilidade portanto."

Gonçalo M. Tavares, 2014
Os velhos também querem viver, p. 11





Nossos tempos
 

Luiz G. G. Trigo, 2016


Muito se fala, se escreve, se posta, se vocifera...

Mas pouco se reflete, se escuta, se estuda e compara.

Há poucos pensamentos complexos, profundos, estruturados de maneira aberta
e articulada.

Há gritos, interjeições, memes, charges, textos curtos e diretos, rasos e estéreis
de baixa fecundidade existencial, intelectual ou espiritual.

Há rezas, pragas, conjuros, lendas, superstições, maldições e bênçãos artificiais.

Chatices, mimimis, picuinhas, teimosias e ciúmes.

Amarguras, gracinhas, calúnias, ofensas, ressentimentos, humores, má-fé,  piadas e gracejos.

Há um cipoal, um amálgama, um enredar intrincado de nós cortantes, mas muitos veem apenas como um jardim ou uma selva. Poucos veem “muito além do jardim”. Poucos entram “no coração das trevas”.  Muitos correm atrás de um sol fantasma de uma galáxia distante...

E muito se fala, se escreve, se posta, se zurra...

Se murmura e se sussura em "versos e trovas",

entre gritos e certezas caducas de ética e estética.

Assim o mundo líquido dissolve antigos temores e amores,

as mudanças assolam e assanham e solapam as fundações do universo e a infância humana atinge seu ápice telúrico, numa espetacular e lipovestkyana mescla entre tecnologia, arte, inconsciência e instinto. 

Enquanto falamos, postamos, rangimos os dentes e gargalhamos para nós mesmos....






Um comentário:

Marcio Bragança disse...
Este comentário foi removido pelo autor.