sábado, 6 de setembro de 2014

Reflexões aeroportuárias




Volto aos Estado Unidos depois de nove anos. A última vez foi em 2005, bem na época do furacão Katrina. Eu estava longe, em Minneapolis, e vi pela TV a desgraça que se abateu sobre New Orleans. Nos últimos anos, parte dos eventos acadêmicos deixaram os EUA por causa na neurose de segurança após o 11 de setembro de 2001. Mas estão voltando.

Neste ano acontece em Mobile (Alabama), uma cidadezinha linda no golfo do México, o congresso da Associação Mundial do Lazer (World Leisure Association): 


Embarquei ontem (sexta-feira) em São Paulo, com a U.S. Airways, uma companhia aérea antiga que agora foi absorvida pela American Airlines.

Por ser sexta-feira, fui bem cedo para o aeroporto para evitar congestionamentos. Não consegui. Mesmo assim cheguei a tempo de observar algumas coisas muito interessantes.

Embarquei no Terminal 2, mas tive tempo de visitar o novíssimo e descoladíssimo Terminal 3. Lindo, monumental, eficiente, com boas lojas e ótimos restaurantes. São Paulo merecia algo assim, já há uns vinte anos. Antes tarde do que nunca. Ainda faltam alguns detalhes e o famoso monotrilho que está sendo construído passará por cima da USP-Leste. Se tiver uma estação por ali, eu aposento de vez o carro em Sampa. A nova linha não chegará exatamente aos terminais, mas enfim, melhor que nada. Pelo que entendi haverá um sistema de vans que levará os passageiros da estação aos terminais. Gambiarra. Não entendo a resistência que há no Brasil em ter metrôs ou trens conectando os aeroportos e as principais cidades. Deve ser o maldito lobby do petróleo ou a incompetência cristalizada em antigos preceitos pré-industriais.

Um detalhe: enquanto não privatizaram o aeroporto e o tiraram das garras da nefasta Infraero, nada mudou. Em poucos meses a nova empresa PRIVADA já inaugurou o edifício garagem, o Terminal 3, novos acessos viários e implementou uma série de novas tecnologias e métodos que facilitam as nossas vidas. A Infraero é pior que o câncer porque este, pelo menos, evolui...

Mas ainda falta algo. Meu voo saiu atrasado porque não havia push backs (aqueles tratores que levam o avião para os fingers) para arrastar o nosso jato até o embarque. Entramos rapidamente na aeronave e então foi o comandante informou, em um sistema péssimo de fonia, que esperavam algo a ver com o balanceamento do jato. Decolamos uma hora e quarenta minutos atrasados e perdi a conexão em Charlotte (SC). Como é sábado e vou para uma cidade pequena (Mobile, lembra?), o próximo voo era às 20h30. Então tive tempo suficiente para terminar os detalhes da minha palestra, navegar na internet, almoçar (caranguejos e vinhos) e curtir a vida aeroportuária local. 

Gosto de ver as pessoas no aeroporto. É um lugar (não-lugar, uma ova, é um lugar sim) etéreo, fluído (líquido, segundo Bauman), hiper-moderno (Lipovetsky), viajante (Trigo) e ótimo para se passar umas horas vendo o nomadismo humano. 

Em Guarulhos havia muitos jovens (e adultos jovens) viajando. Sós, em grupos, em casais, todos com seus celulares, iPods, notebooks e olhares mesclados aos fluxos e redes, reais e virtuais. Aqui em Charlotte idem. Sinto-me em casa. Ou estranho, é a mesma coisa.

Mas mesmo assim há gente estranha. Ontem, por exemplo, vi duas criaturas embarcando nos voos internacionais com bermudas e sandálias tipo Havaianas. OK, já sou razoavelmente velho e na minha época existia uma expressão preconceituosa chamada “pé-de-chinelo”. Mas, kct, viajar de chinelo num voo internacional! Eram dois jovens (um bem jovem e grotesco, sorry), viajando separadamente, um deles com a provável genitora. Para mim os problemas são técnicos. Um aeroporto tem milhares de pessoas com malas, pacotes, carrinhos e o escambau, seria horrível ter o pé desprotegido esmagado por uma dessas pessoas muitas vezes ensandecidas porque estão perdendo o voo, ou perdidas e ansiosas, ou gostariam de se perder no mundo. Depois há a cabine do avião, ela fica fria durante a madrugada e os pezinhos sofrem, mesmo que tenham casca grossa dos que se acostumam a trotar com os cascos seminus. Enfim, cada um é como cada qual e cada qual é como a PQP, como dizem os portugueses, pelo menos os mais informais (meus colegas acadêmicos de Portugal jamais falariam isso).


Falando em Portugal, veja acima a publicidade no aeroporto de Charlotte sobre o novo voo direto para Lisboa.

Cheguei em Charlotte, passei na Imigração com razoável brevidade e fui na U.S. Airways perguntar sobre meu voo, pois chegamos às 10h00 e meu voo decolara às 09h39. A gentil senhora atendente disse que o computador me remarcou para a cidade “x” (esqueci o nome, era um voo ao meio-dia), pois o próximo voo para Mobile seria às 20h30. Perguntei a distância de “x” para Mobile. Ela disse, não sei! Como estava de bom humor, graças ao stilnox ingerido para dormir naquelas poltronas torturantes da classe econômica, comentei sorrindo que não decidiria sem saber a distância entre as cidades, a que era o meu destino e a que o sistema me mandou. Ela perguntou para um senhor mais experiente e ele respondeu: uma 500 milhas. Encerrei a conversa e concordei em embarcar às oito e meia da noite. Se fosse inexperiente estaria voando para uns 700 quilômetros longe do meu destino, e a culpa seria do “sistema”. 


Tendo oito horas pela frente fui ver as possibilidades da cidade no setor de informações turísticas e decidi ficar no aeroporto mesmo. Avisei o atraso para os organizadores do congresso (como convidado tenho que informar tudo) e fui passear pelo terminal.        
Por enquanto estou curtindo o ambiente e escrevendo para o blog. Em algumas poucas horas embarco para o destino final. Depois conto sobre o evento e a cidade.


Phillips Seafood Restaurant, Charlotte Airport. Esperando voos e vendo o mundo.



Um comentário:

Oscarlinda Kruger disse...

Interessante poder se analisar a cultura mundial a partir de uma espera de conexão em um aeroporto.