segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Costa Concordia e uma pedra no caminho

Fotos: Luiz G.G. Trigo, a bordo do Costa Serena (gêmeo do Costa Concordia), em janeiro de 2011.




“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.”

Carlos Drummond de Andrade

Não sei se Francesco Schettino, o comandante do Costa Concórdia, conhecia a poesia de Drummond, mas o imagino, em sua cela na prisão, pensando em seu luxuoso camarote de comandante daquela imensa nave, com bebidas à sua escolha, conforto, status, boas comidas e talvez mulheres se oferecendo à autoridade máxima do barco. A realidade agora é outra: desolação, abandono, a prisão e uma dúvida sobre seu futuro – claro que a carreira está arruinada – em virtude das pessoas ainda desaparecidas e da iminência de um desastre ambiental na ilha de Giglio, um parque marinho italiano protegido. Se os desaparecidos surgirem como cadáveres submersos nos destroços e o mau tempo destruir o navio poluindo aquela nobre parte do Mediterrâneo, sua situação, já muito delicada, poderá piorar.

Além dos seis mortos confirmados e do impacto negativo nos cruzeiros no Mediterrâneo, os prejuízos diretos somam mais de 90 milhões de dólares (sem contar os custos adicionais ainda não avaliados) e as ações da companhia caíram 16,5% na bolsa de Londres (em 16/01/12). A Organização Marítima Internacional (OMI) declarou que vai tirar as lições necessárias do naufrágio do navio "Costa Concordia" e, em caso de necessidade, modificará a diretriz de segurança para os cruzeiros, informou o secretário-geral Koji Sekimizu, em um comunicado difundido em Londres.

Grupos ambientalistas vêm pedindo há anos que os grandes navios sejam proibidos de se aproximar do arquipélago da Toscana, formado pelas ilhas de Giglio, Montecristo, Pianosa, Elba, Capraia e Gorgona. "Essas monstruosas cidades flutuantes poluem o cenário com a sua presença e os rios, mares e cidades onde param com os dejetos que produzem", afirmou a presidente nacional do grupo de conservação italiano Italia Nostra, Alessandra Motola Molfino. "O desastre do Costa Concordia infelizmente prova a insustentabilidade do tipo de turismo que explora e maltrata a beleza e o patrimônio cultural da Itália e não produz nenhum crescimento nem bem-estar", afirmou ela à agência Reuters.
Tudo isso foi motivado por um único homem, o comandante do Costa Concordia, que, segundo primeiras informações da imprensa, teria desviado o navio de 114 mil toneladas de seu curso normal para homenagear o chefe dos garçons e um ex-comandante que são da ilha de Giglio, passando perigosamente perto do litoral e encontrando as rochas fatais que levou o barco ao desastre e sua vida ao inferno.
O que leva um executivo, comandante de uma nave que vale centenas de milhões de dólares, com mais de 4.200 pessoas a bordo, a negligenciar tão irresponsavelmente sua tarefa que consiste simplesmente em levar o barco de porto em porto em segurança e preferencialmente nos horários previstos no roteiro do cruzeiro? Será a cultura local, que preza homenagens arcaicas, razoáveis no passado, com barcos pequenos e facilmente manobráveis, mas absurdas ante o tamanho dos navios atuais? Certamente foi o excesso de confiança do comandante, ou a hybris, a loucura grega, que cega os homens ante suas ambições e desejos mais egoístas. A figura dos comandantes de um navio ou de uma aeronave, assim como os poderosos executivos das corporações, muitas vezes é endeusada e blindada contra críticas ou erros potenciais. Platão já afirmava que pilotos, médicos e políticos estão sujeitos a erros de compreensão que podem levar seus projetos ao desastre. Nas últimas décadas, vários executivos financeiros causaram prejuízos bilionários – por erro, má-fé ou ganância – às suas instituições. A história dos desastres aéreos está coalhada de erros humanos, muitas vezes provocados pela arrogância ou presunção de seus pilotos. O próprio naufrágio do Titanic, que completa um século neste ano, foi provocado pela negligência do comandante que não acreditou no boletim meteorológico que previa icebergs um pouco mais ao sul, preocupado em não se desviar da rota mais curta para quebrar um recorde de velocidade entre Southampton e New York.
A Costa é parte da World´s Leading Cruise Lines, conglomerado que reúne companhias de cruzeiros marítimos como a Costa (15 navios, com o Concordia), Carnival (24 navios), Holland América (15 navios), Cunard (apenas três navios, mas são  o Queen Mary 2, Queen Elizabeth e o Queen Victoria) o , Princess (18 navios) e a sofisticada Seabourn (seis navios). O acidente afetará não apenas a Costa, mas o mercado em geral de cruzeiros marítimos, pois esse importante segmento do turismo global cresceu poderosamente nas últimas duas décadas e possui inimigos como os resorts e alguns ambientalistas. A rematada estupidez do comandante Schettino foi uma pedra rombuda na proa do setor de cruzeiros, mas poderá servir para garantir uma maior disciplina a bordo, especialmente nas carreiras top, muitas vezes liberadas de proibições que afetam as hierarquias inferiores. Servirá também para que os regulamentos sobre questões ambientais, direitos sociais dos tripulantes, respeito às culturas locais e responsabilidade social sejam um pouco mais respeitados, haja vista a necessidade de aplacar a opinião pública depois dessa catástrofe administrativa protagonizada pelo comandante de um dos seus maiores e famosos navios.
Assim caminha a humanidade, tentando superar os seus erros e limitações. Besteiras acontecem sempre e em todo o lugar, mas a grande lição é que podemos evitá-las se controlarmos nossos apegos, delírios e neuroses e seguirmos algumas diretrizes que existem justamente para evitar que pisemos em nós mesmos, ao fim de nossos atos insanos, movidos pelo orgulho ou pela arrogância/insegurança que nos assola nas madrugadas insones. Lembro que a NASA, a agência espacial norte-americana, explodiu 40 % (quarenta por cento!) de sua frota de Space Shuttles (eram cinco: Enterprise, Columbia, Challenger, Endeavour e Atlantis; sendo que Challenger explodiu no lançamento, em 1986, e Columbia desintegrou-se na re-entrada da atmosfera, em 2003), sempre com erros que poderiam ser evitados com mais pesquisa e atenção aos detalhes. 
Do trânsito cotidiano ao espaço, passando pelos mares e ares, nossos desastres humanos nos espreitam. Basta um instante de cegueira situacional ou de prepotência existencial para nos precipitar no caos e no desastre. Muita atenção com as pedras da vida...

Para ter uma ideia de como era o Costa Concordia, abaixo algumas fotos que tirei a bordo do Costa Serena (navio gêmeo, com decoração diferente), em um cruzeiro à Bahia, em janeiro de 2011.


Área do Spa de bordo. Exclusiva e muito bem estruturada.


O auditório onde acontecem os shows e espetáculos.


Alguns restaurantes possuem amplas janelas para o mar.


São quase 300 metros de comprimento...


... e uma altura imponente.


Essa foto foi tirada em Salvador, no último deck do navio (13). Veja como ele é mais alto que os prédios, lembrando que parte do barco está submersa.


O estaleiro italiano que constrói os mega-ships. Porém, de nada vale a engenharia e a tecnologia contra a estupidez humana.

Um comentário:

WELINTON disse...

muito bom,disse o que eu gostaría de dizer