sexta-feira, 19 de julho de 2013

Belém do Pará





Reservei cinco dias das férias para rever Belém do Pará. Fique na casa de um velho amigo de Campinas, hoje diretor financeiro numa grande empresa no estado. Na viagem de ida li Equinociais – Viagens pelo Brasil dos Confins. O texto foi escrito pelo francês Gilles Lapouge ( ex-jornalista econômico do jornal O Estado de São Paulo) e publicado pela Pontes Editores, de Campinas, em 1994. Foi presente do Reinaldo Pontes, ao saber do lançamento do livro sobre viagens que escrevi ao longo dos últimos quatro anos. Meu livro não descreve viagens, é uma reflexão sobre o viajar e o conhecimento adquirido sobre o mundo, as outras pessoas, a sociedade e, principalmente, sobre nós mesmos. 

O livro de Lapouge (ainda disponível em  http://www.ponteseditores.com.br/) relata o Brasil de meados da década de 1970. Foi uma delícia ler seus relatos, pois foi por essa mesma época que comecei a viajar e percorrer o Brasil profundo, tão diferente e excitante, em cada uma de suas regiões, rincões e cidades. 

O país mudou intensamente ao longo das décadas recentes, mas suas características básicas de beleza, culturas diversificadas, selvageria e violência foram mantidas. 

Ao voar sobre o norte de Goiás e Tocantins mesclava as páginas do livro às visões da seca e escrevi, nas margens de uma página em branco do livro, o que via e sonhava da janelinha do avião:  As terras esturricadas se estendem por dezenas de quilômetros ao redor da aeronave que percorre um céu azul pálido. Sem nuvens, apenas um ar ligeiramente embaçado, com réstias nebulosas nos indistintos horizontes distantes. Todos os tons de marrom terroso salpicado de minúsculas formas geométricas, pintadas com um verde sujo e cortadas por retas desviantes de terra clara que terminam ao pé de mesetas áridas, debruçadas sobre planícies monótonas, tão similares aos seus platôs, igualmente ressecados, imensos... De repente um rio, de água terrosa, que mal se distingue dos solos, corta o mundo sem tingir suas margens de verde. As cores marrons dominam a paisagem até que a Amazônia se impõe e seus verdes desvairados cobrem as terras até encontrar o mundo de águas fluviais que parecem mares.   

Faz mais de uma década que não vinha a Belém. Logo na aterrisagem a cidade me impressionou pelo número de torres novas, com 30 ou 35 andares, que hoje são comuns em várias cidades brasileiras. 


Conheci a Amazônia no início da década de 1980, a bordo do navio Funchal, onde trabalhava na equipe gestora da Abreutur. A Abreu fretava o navio português e percorríamos o lado Atlântico do continente, de Manaus a Mar del Plata, em um total de sete cruzeiros de verão. Depois foram as viagens aéreas, com os roteiros turísticos pelo norte do país e finalmente comecei a viajar para dar palestras ou cursos.
Por quatro vezes percorri o rio Amazonas, da foz até Manaus, a bordo do Funchal. Era um sonho. Ficava na ponte de comando, nas muitas horas vagas, encantado com a beleza estranha e profunda da selva, dos rios, dos cenários que se moviam naquele mundo líquido e misterioso para alguém como eu, que sempre viveu em cidades no sudeste do país. 

O Brasil ainda era muito fechado ao exterior e Manaus era um porto livre com laivos imaginários de uma Miami equatorial por causa dos produtos importados, sonho de consumo de uma classe média jeca e carente de novidades. O navio saía de Manaus carregado de vídeo cassetes, roupas, perfumes, pequenas tralhas eletrônicas e outros cacarecos importados. Em Belém tomávamos sorvetes e as compras eram na Paratur, vasos e peças de cerâmica marajoara.

 

 Belém é faosa pela natureza, os rios e as mangueiras nas ruas. Esse é o tronco de uma delas, coberto de outras plantas.


 No parque Emílio Goeldi há um pequeno lago com vitórias-régias.



 Essa é uma delas florescendo. A folha se abre aos poucos sobre as águas.



 Meu velho amigo, Laderlei, que está trabalhando em Belém. Visitamos alguns restaurantes ótimos. O La Madre, especializado em cozinha contemporânea, possui excelente serviço.
 

 O ponto alto da cidade são as docas. Reformadas em 2001, a exemplo de Puerto Madero (Buenos Aires) e Bayside Miami, os antigos armazéns hoje possuem área de eventos, restaurantes, bares e lojas. 



 Esse é o filhote, um peixe, servido com arroz e jambu e batatinhas noisette. 


 Almocei com Álvaro Espírito Santo, o secretário adjunto do turismo do estado do Pará, primeiro turismólogo graduado na UFPA (com sua esposa, Ângela) e grande amigo dos velhos tempos. Almoçamos nas docas.


 O Mangal das Garças é um parque novo, com animais, restaurantes, plantas e amplos espaços de lazer.





 Uma visão dos armazéns das docas, todos com ar-condicionado e muito conforto. 

 O forte do Presépio é outra área renovada (juntamente com as docas, casa das Onze Janelas, igrejas e casarões). 

Foram cinco dias intensos e deliciosos. Agora vamos ao final das férias.

















domingo, 23 de junho de 2013

50 frases da revolução hibernal brasileira



Coletei no facebook, nas manifestações, na internet em geral e na mídia impressa algumas frases que marcaram o que chamo de revolução hibernal brasileira. Verdade que não é uma revolução no sentido pleno da palavra, nosso inverno é suave e o Brasil é algo bem complexo de ser entendido. Mas essas frases encheram os cartazes nos protestos de rua: contra o aumento das tarifas de transporte público; contra a corrupção e a impunidade; a favor de serviços públicos de qualidade; contra os desmandos da FIFA; contra a idiotice do projeto Cura Gay (proposto pelo deputado João Campos, do PSDB de Goiás e insuflado pelo Feliciano, da mesma bancada de evangélicos fundamentalistas); e contra o machismo, exposto com muito humor e pouca roupa na Marcha das Vadias.


São frases que representam um estado de humor, sentimentos e ideias de quem foi às ruas protestar. O que acontecerá agora? A semana que se inicia nos contará e, certamente, novos desafios e surpresas surgirão. Além de mais frases de efeito nos cartazes e na boca do povo na rua, como essas selecionadas com gosto, fé e tesão:

Nós não estaremos nas ruas para mudá-los, mas para mudarmos. Vocês não vão mudar e é por isso que muitos de vocês não servem mais.


Enquanto você assiste TV, eu mudo o país por você.

Não fui para Hogwarts, mas cansei de ser trouxa.


Acorda Brasil!


O comodismo é um mal parasitário.


Se a cura gay for pelo SUS ... o povo vai morrer viado.


Depois da cura gay só falta alvejante para negros.


Sexualidade é opção, assim como religião.


Doutor, eu não me engano, quem não tem cura é o Feliciano.


Preconceito é que é doença.


Queremos cura para a fome.


Curo corrupto. Trago a honestidade em 3 dias...

Pensamento do dia: Feliciano, cuida do teu rabo que eu cuido do meu!

Não estou na arquibancada, estou virando o jogo.


Estádios já temos... Bora construir um país em volta?


Estou cansado desta merda.


Eu posso mudar o Brasil.


Não há ordem sem justiça.


Governo Dilma: 39 ministérios. Haja teta para mamar.


Verás que um filho teu não foge à luta.



Se vão importar médicos cubanos para melhorar a saúde, queremos policiais ingleses para melhorar a segurança pública e políticos suecos para acabar com a corrupção. 


Tirar os bandidos da Rocinha foi moleza, quero ver quem consegue tirar os de Brasília.


Enquanto a bola rola, falta saúde e falta escola.


Jogaram mentos na geração Coca-Cola!


Não são por centavos que estamos aqui!


Escola e hospitais padrão FIFA!


Eu só aceitaria essa tarifa de ônibus se tivesse wi-fi, ar condicionado e open bar durante a viagem.



Sorte de hoje: você não é a Dilma.


V de vinagre...


E se essas manifestações em todo o Brasil forem apenas uma jogada de marketing das empresas de vinagre?



Cansado de notícias sobre as manifestações? Eu estava cansado de ver mensagens de auto-ajuda e indiretinhas (no facebook).



Enfia os vinte centavos no SUS.


Tem tanta coisa errada que nem cabe em um cartaz.


Estou aqui para garantir que eu possa estar aqui.


Change Brasil! (manifestações de brasileiros no exterior)


A vida não se resume a festivais ou futebol.


Desculpe o transtorno, estamos mudando o Brasil.



Se ir e vir é um direito, lutar por ele é um dever. 


Professor, te desejo o salário de um deputado e o prestígio de um jogador de futebol.



Mim xama di Copa i envesti ni mim. Assinado: Educação.


Brasil 3, Japão zero, em futebol. Em educação, Japão 10 a zero.


Vamos acordar, um professor vale mais que o Neymar. 


Estou aqui pelos meus alunos que não puderam vir.


Redução do salário dos políticos. Vamos levantar essa bandeira também.


Sou mulher, sou livre.


Aborte seu machismo. 


Meu corpo, minhas regras (escrito no corpo de uma mulher)


Quando um home é oprimido é uma tragédia, quando uma mulher é oprimida é tradição.



Nem santas, nem putas. Mulheres livres!


Saia do meu corpo que não TE pertence. 


Cobrando ou não, sexo não dá direito à agressão. 



Já que a bomba é de efeito moral, joga no congresso nacional.

Conseguimos os centavos de volta, agora queremos os bilhões.

Povo corrupto = governo corrupto. Chega do jeitinho brasileiro. Corrupção não.

É uma vergonha, o preço da passagem tá mais caro que a maconha!
 

terça-feira, 18 de junho de 2013

A insatisfação está no ar e nas ruas

As pessoas se perguntam por que há tanta revolta e desgosto no ar das cidades brasileiras. Um dos motivos é esse impostômetro, exposto 24 horas, quase em frente ao Páteo do Colégio, em São Paulo. Até hoje já pagamos mais de 700 bilhões em impostos e o retorno, especialmente para a classe média, é pífio. Para os mais pobres algo melhorou, especialmente nas últimas duas décadas, ou seja, desde o Plano Real do governo FHC e o início das bolsas populares. Depois o Lula aprimorou os benefícios, mas a qualidade dos serviços públicos deixa muiiiiiito a desejar.


Hoje cerca de 50 mil pessoas se concentraram na Praça da Sé. Nos canteiros próximos, estavam os carros de apoio das TVs. Um deles (da Record) foi queimado mais tarde, em frente à Prefeitura. Já aviso que não há fotos dos tumultos, pois prezo meu bem estar e não gosto de levar porradas da PM, gás ou spray de pimenta nos meus olhinhos, que já precisam de lentes multifocais.  


Foi uma manifestação com muita garotada classe média, alguns mais velhos, poucos trabalhadores populares e muito bom humor. Vi a massa criticar as poucas bandeiras de partidos (claro que nenhuma do PT ou PSDB) de extrema esquerda e tentar reprimir atos de vandalismo.

A multidão colorida tomou as escadarias da Catedral da Sé, local símbolo das movimentações populares pelas Diretas Já, em 1983.


É, literalmente, um monte de gente.


Alguns acessos da estação do metrô ficaram fechados e a multidão se esparramou pelos canteiros, calçadas laterais e ruas próximas.


A noite caiu sobre a multidão que saiu em passeata ao som dos sinos, que avisavam ser seis horas da tarde.

Uma parte da multidão foi para o terminal de ônibus do Parque Dom Pedro e outra foi para a Prefeitura, onde começaram os atos de vandalismo: um caminhão de apoio da TV Record foi queimado, uma pequena base da PM destruída, algumas lojas saqueadas e agencias bancárias depredadas. Esse é o lado ruim e irresponsável de qualquer manifestação. Quem começa os ataques? Extremistas infiltrados? Marginais oportunistas? É bom que o quanto antes se saibam as respostas.

Fiquei perto da Prefeitura até começar os empurrões e depois me mandei. Aí está a fachada do prédio (à esquerda) e um dos helicópteros sobrevoando a área.


E termino com fotos de alguns dos cartazes que a garotada levou na manifestação.

Finalmente saúde e educação entram na agenda popular de forma contundente.


A atenção com os gastos feitos para a Copa é irreprimível. Segundo fontes oficiais, a conta para 2014, chega a 28 bilhões de reais. Quase o triplo dos gastos feitos em Copas anteriores e com resultados muito menos adequados, pois a infraestrutura do país é lamentável (portos, aeroportos, vias de acesso, ferrovias, terminais rodoviários, sinalização, museus...). O esperado legado das Copas é frustrante.


Updating velhos estereótipos...

Revivendo os mitos históricos consagrados pelos HQ, como 300, de Frank Miller.


E assim foi a sexta manifestação paulistana, ao lado de outras tantas pelo país. Alguns olham com temor para tudo isso, pois lembram de antigas manipulações e conspirações. Porém está-se colhendo o fruto amargo do populismo, da impunidade e da corrupção, de um tipo inédito de articulação entre vários partidos unidos por interesses não-republicanos. Turvou-se a diferença ideológica e partidária. Surge um movimento de ruas, sem líderes clássicos ou metas bem estipuladas. A única sensação comum é a de insatisfação profunda com "tudo o que está aí". Uma boa oportunidade para rever políticas públicas e padrões éticos de conduta governamental, corporativa, institucional e pessoal.